Jesus se sentiu de tal forma e com tal intensidade vinculado a Deus,
que só conseguiu expressar-se utilizando a categoria da filiação. Ele
se dirige a Deus chamando-O de Aba, palavra aramaica que os tradutores
não ousaram tocar, não conseguiram outra para expressar todo seu
conteúdo. Aba – baba nas línguas semíticas, papa nas latinas, dada nas
anglo-saxônicas – é a forma carinhosa com que a criança chama seu pai,
vocábulo primitivo, que o nenê balbucia. Somente a palavra Aba consegue
transmitir o que Jesus Cristo sentia quando olhava para Deus.
Aba é uma das palavras mais densas de todo o Novo
Testamento. Ela nos revela esse mistério íntimo e supremo da relação de
Jesus com Deus. Jesus invoca a Deus com esse termo denotador de
familiaridade e intimidade absoluta. Com essa palavra é possível abrir
uma pequena fresta no mistério de Deus. Uma fresta que nos permite
deslumbrar a ternura, o cuidado e o afago de Deus. Jesus Cristo chama
Deus de Pai, Aba, Papai, Painho.
Ao chamar Deus de Pai, Jesus nos revela o segredo de
Seu ser único. Assim, o Deus vivo e verdadeiro, o criador do universo,
a quem não vemos, é o Pai de Jesus Cristo. O Deus Altíssimo, o
Todo-Poderoso, passa a ser definido como o Pai de Jesus.
Lemos no Evangelho de João que Jesus diz: “Eu e o
Pai somos um” (10:30), e ainda: “Ninguém jamais viu o Pai, o Deus
unigênito, que está no seio do Pai que o revelou” (1:18). Felipe
pede a Jesus: “Mostra-nos o Pai”, e Jesus responde: “Quem vê a mim vê o
Pai” (João 14:8-9).
Assim, podemos dizer que Deus Pai escolheu se revelar por meio de Cristo, e isso tem dois desdobramentos:
• Da parte de Deus, Ele se revela a nós tão-somente por intermédio de Jesus Cristo.
• Da nossa parte, só podemos conhecer e nos relacionar com Deus por meio de Seu Filho Jesus Cristo.
Deus é revelado ao homem essencialmente na lógica do
amor, da ternura, da proteção. Pai é aquele que gera, que cuida, que
protege, que carrega, que dá direção e limites, que educa, que lança
para a vida. Um Pai com muitas coisas de mãe, que tem carinho, colo e
afago.
Toda a experiência humana de Jesus Cristo em relação
a Deus como Filho, toda Sua vivência de dependência, vínculo,
proximidade, intimidade pode também ser nossa pela adoção.
Pois, quando nos convertemos, nos tornamos filhos de
Deus: “Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem
feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem em seu nome” (João 1:12).
Ou ainda: “E porque sois filhos enviou Deus aos nossos corações o
Espírito de seu Filho que clama Aba Pai, de sorte que não és escravo,
porém filho e sendo filho também herdeiro de Deus” (Gálatas 4:6).
A filiação é a nossa identidade no mais profundo, no
âmago. Quem somos nós? Somos pecadores a quem Deus fez Seus filhos
amados. Essa convicção profunda, testificada no nosso coração pelo
Espírito Santo, gera uma profunda alegria – a alegria da afirmação de
nossa identidade.
A oração que Jesus ensinou aos Seus discípulos
começa com Aba, Pai e expressa uma invocação cheia de afeto, júbilo,
louvor, alegria, submissão, intimidade e respeito. Quando invocamos a
Deus como nosso Pai, o discipulado passa a ser visto na ótica da
filiação.
Os seguidores e discípulos de Jesus Cristo são
vistos como filhos, e a comunidade cristã é vista como família de Deus.
Então, a caminhada de fé passa a ser permeada por essa relação de
paternidade, filiação e fraternidade. Um relacionamento marcado por
essa proximidade afetiva de Deus para com os discípulos que se tornaram
Seus filhos e irmãos entre si.
A queda nos lançou numa terra distante, e se
converter significa voltar para a casa do Pai, como fez o filho
pródigo. Um Pai amoroso que nos acolhe sem restrições e pelos méritos
da cruz de Cristo nos perdoa, nos abraça e faz festa.
Nossa filiação é a grande afirmação do Novo
Testamento, e Aba Pai é a expressão mais exata para traduzir em nosso
mundo a experiência que temos com Deus. Estamos reconciliados com nosso
Pai Celestial.
Osmar Ludovico é um dos pastores da
Comunidade de Cristo, em Curitiba, e trabalha com grupos de
espiritualidade, casais e restauração.