Em levantamento feito pela Unesco entre 57 países, o Brasil é o segundo
em que mais mortes ocorrem por causa das armas, sejam assassinatos,
suicídios ou mesmo acidentes. A cada ano morrem de 35 a 40 mil
brasileiros por armas de fogo.
As Escrituras nos relatam que a primeira cena
de violência foi o assassinato de Abel por seu irmão Caim. Ela
aconteceu logo depois da queda de Adão e Eva, a rebelião primordial que
tirou a humanidade de sua inocência e introduziu o mal neste planeta.
As causas da guerra e da violência não são só
circunstanciais, sociais, econômicas, geopolíticas, mas decorrentes do
pecado, da natureza caída do homem. “De onde procedem as guerras e as
contendas que há entre vós, senão dos prazeres que militam na vossa
carne” (Tiago 4:1). “Porque do coração do homem procedem os maus
desígnios, e os homicídios...” (Mateus 15:19).
No momento em que se discute no Brasil a
questão do desarmamento devemos nos perguntar qual a resposta das
Escrituras para a questão da violência e do mal.
Jesus foi até as últimas conseqüências, movido
pelo Seu amor. Em face do mal e da violência, Ele entrega Sua vida para
Seus amigos e Seus inimigos. A única resposta possível em face do mal e
da violência é o amor e o perdão que surgem de uma vida santa. Esta é a
resposta de Deus ao mal: um amor maior que responde ao mal com o bem.
“Pai, perdoa-lhes por que não sabem o que
fazem” (Lucas 23:24). Cristo, que nos convida a entrar no combate do
mal, não com as armas do mal, mas com a insondável profundeza de Seu
perdão, diz: “...amando nossos inimigos e intercedendo por eles”
(Mateus 5:44). Seu convite é intensamente atual num mundo onde há tanta
insegurança, tanta angústia, onde a humanidade perdeu o apreço e o
valor da vida. Quando respondemos ao mal com o mal só retroalimentamos
o mal que se torna mais impiedoso, mais brutal, mais odioso. Só um
grande amor pode quebrar o círculo vicioso do mal. Frente aos Seus
detratores e algozes, Cristo oferece a outra face, e na cruz do
Calvário, olhando firmemente para o grande Inimigo, o vence pela oferta
de Seu amor e morre em pé desmascarando o mal.
Só um amor desarmado pode derrubar as
fortalezas do ódio e quebrar o círculo infernal da violência, abrindo
um horizonte de paz e compreensão.
Esse combate somente podemos efetuar com Ele e
por meio dEle. “Nem por força nem por violência, mas pelo meu Espírito,
diz o Senhor” (Zacarias 4:6). Quando nos voltamos inteiramente para
Deus, então encontramos a fonte desse amor que vence o mal. Assim,
pouco a pouco, ao longo da vida, aprendemos a nos desarmar, a desmontar
nossa obsessão de ter razão em todas as coisas, em ter a palavra final,
em atacar e humilhar quando nos sentimos ameaçados. Esse é o combate
maior que travamos, o combate em nosso coração endurecido pelo pecado,
que insiste em sermos os primeiros e a respondermos o mal com a
vingança. Quando aprendemos a responder o mal com o bem, não mais nos
associamos ao mal.
“A resposta branda desvia o furor” (Provérbios
15:1). Assim, com Cristo, aprendemos a ser solidários, pacientes,
tolerantes e a enfrentar o mal e a violência com o bem e a paz.
Podemos então olhar para Jesus Cristo como
aquEle que enfrentou, expôs e venceu a maldade dos fariseus e a
violência do Império Romano com a oferta de Sua própria vida. A
História recente mostra como forças impiedosas como o racismo e a
colonização foram confrontados e vencidos de forma não-violenta por
Martin Luther King Jr., nos Estados Unidos, e Gandhi, na Índia.
Nesse sentido os cristãos devem se pronunciar
a favor do desarmamento e atuar cada vez mais como cidadãos
responsáveis que buscam fazer o bem, promovendo a vida e enfrentando a
cultura de morte que ceifa a vida de tantos conterrâneos, na sua
maioria jovens urbanos. O desarmamento e uma rigorosa fiscalização do
mercado paralelo de armas certamente vai fazer baixar os alarmantes
índices de crimes mencionados no primeiro parágrafo.
A violência no Brasil somente poderá ser
atenuada se homens e mulheres seguidores de Jesus Cristo se unirem num
grande mutirão que promova a paz e a justiça. Somos cerca de 20 milhões
de cristãos convertidos neste país, espalhados em todos os segmentos da
vida pública e privada. É tempo de nos arrependermos de nossa omissão
frente ao mal e levantarmos nossa voz profética denunciando a injustiça
e proclamando o Evangelho da paz e da reconciliação.
Osmar Ludovico é um dos pastores da
Comunidade de Cristo, em Curitiba, e trabalha com grupos de
espiritualidade, casais e restauração.