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EDIÇÃO 50 > ENTREVISTA
Jornalista, escritor de best-sellers e colunista da Enfoque, Philip Yancey revela como se dá a produção de seus livros e como se sente como cristão “comum”, como ele mesmo diz
A Igreja está entre a paixão e o conhecimento
Israel Belo de Azevedo
Autor de vários livros muito bem vendidos em todo o mundo, inclusive no
Brasil, Philip Yancey nunca estudou teologia, mas escreve como um
teólogo da graça, nunca estudou filosofia formalmente, mas parece um
filósofo em suas reflexões sobre o sentido da vida, nunca fez
psicologia, mas se conecta às almas com profundidade. Quem o lê não se
sente diante de um cidadão norte-americano, mas cidadão do mundo. ENFOQUE – Eu seus livros há muitas referências pessoais. Esse toque autobiográfico é intencional? ENFOQUE – Thomas Merton se recolhia seis meses no mosteiro e viajava
seis meses para manter contato com a realidade. Você também viaja muito? YANCEY – Por alguns anos nós moramos em Chicago, que é uma cidade
grande, como São Paulo e Rio de Janeiro, e lá era muito bom para um
jornalista. Era só eu sair, que tinha alguém sendo assaltado, tendo um
ataque do coração. Sempre tinha alguma coisa sobre o que escrever. Mas
era muito difícil para um escritor refl exivo, porque tinha alarmes de
carro disparando, ruas engarrafadas, barulhos, coisas normais da
cidade, distrações demais. Então, quando atingi o ponto de deixar de
ser um jornalista para ser um escritor reflexivo, meditativo, nós nos
mudamos para o Colorado, e isso foi há 13 anos. Você está certo.
Procuro manter os meus pés em ambos os mundos. Fazemos quatro viagens
internacionais ENFOQUE – Quem escolhe os temas dos livros: você ou seus editores? YANCEY – Inúmeras vezes a editora me deu idéias de temas, mas,
infelizmente, nunca aceitei. Muitos dos meus livros vêm de coisas que
surgem nos livros anteriores. Por exemplo, um dos primeiro livros que
escrevi foi Onde está Deus quando chega a dor. Ouvia muitos leitores
agradecendo pelo livro, mas ele falava mais sobre a dor física, quando
muitas vezes as pessoas tinham outro tipo de dor. Ouvia testemunhos
como: “Meu problema é diferente, eu tenho uma criança com deficiência,
e desde então eu tenho estado bravo com Deus. Não é que esteja com dor,
mas eu me sinto traído.” Então, escrevi um livro chamado Decepcionado
com Deus. Muitas vezes, as questões que são levantadas em um livro, mas
não são desenvolvidas ou respondidas, retornam em outro livro.
Geralmente, escrevo sobre algo para o qual não tenho a resposta. Agora
estou escrevendo um livro sobre oração, não porque eu seja um grande
guerreiro da oração e tenha coisas a dizer sobre o tema. Ao contrário,
oração sempre foi frustrante para mim. Eu tenho algumas perguntas: se
Deus já sabe de tudo, por que temos de gastar tempo orando? Ouço de
muitas pessoas que oram para serem curadas e não são. Sempre me
perguntei para o que serve a oração. Quando tenho um questionamento que
continua surgindo de tempo em tempo, decido que é hora de escrever
sobre isso. Eu me sinto privilegiado porque posso passar um ano, dois
anos, fazendo nada além de pensar em um determinado tema, como, por
exemplo, a oração. Li as 650 orações da Bíblia e vi o que eu podia
aprender com cada uma delas. Pesquisei nos livros da biblioteca,
entrevistei pessoas, mas, no fim, tenho de sintetizar o que eu aprendi
e o que ainda questiono. ENFOQUE – Quais foram os seus livros que mais venderam? YANCEY – Os três que mais venderam foram Onde está Deus quando chega
a dor? – que é o livro mais antigo –, O Jesus que eu nunca conheci e
Maravilhosa graça. Esses três venderam mais do que os outros. Um livro
em que coloquei muito de mim e que não vendeu muito foi O Deus
(in)visível. Alguns brasileiros que estão aqui comigo me falaram que
leram este livro e interagiram profundamente com ele, mas não tantas
pessoas como com os outros livros. ENFOQUE – Qual deles lhe deu mais prazer? YANCEY – Em termos de satisfação sobre a reação dos leitores, foi
Maravilhosa graça, mas, na realidade, o livro que mais gostei de ter
escrito foi Alma sobrevivente. Para mim, foi uma experiência muito
saudável sentar e pensar nos meus mentores, nas pessoas que me infl
uenciaram. Seria uma experiência positiva para qualquer um gastar cinco
minutos pensando sobre as pessoas que o influenciaram. Pude passar um
ano pensando nisso, podendo conhecê-los e tentando entender que sou
diferente por causa deles. Escrevi sobre mim, mas escrevi sobre mim por
meio dos olhos de outras pessoas, por meio dos seus efeitos em mim. ENFOQUE – Um desses seus mentores foi o Dr. Paul Grant. Como foi seu último encontro com ele? YANCEY – Nós estávamos de saída para uma viagem à Nova Zelândia,
quando ficamos sabendo que ele tinha caído e estava em coma. Mudamos as
passagens, para voar até Seatle e passar o dia lá. Ele tinha seis fi
lhos, e estavam todos com ele. Estavam todos no quarto. Ele estava
inconsciente, em posição fetal, e não tinha nenhum brilho em seus
olhos. Grant era um cirurgião de mãos, e quando você segurava a mão
dele era como se ele estivesse examinando as suas. O seu cérebro estava
quase destruído, mas, no fundo, ele ainda estava examinando as suas
mãos. Quando segurei as dele, ele examinou as minhas. Foi muito
emocionante. Como todos os seus fi lhos estavam lá, decidi que ia falar
para cada um deles o que tinha aprendido sobre eles por meio de seu
pai. Para os filhos, ele sempre foi esse pai famoso que estava sempre
fora, fazendo cirurgias, viajando. Mas quando eu estava sentado com
ele, conversando, e o telefone tocava e era um de seus filhos, nada que
a gente fazia tinha importância. Ele pulava da cadeira para atender.
Quando voltava, estava radiante. Ele era um homem tradicional, e muitos
homens não compartilham o que sentem por seus filhos, mas ele tinha
dividido isso comigo. Esse foi o meu presente para a família. Foi um
momento emocionante. Nos dias seguintes eu acordava chorando. Como
perdi meu pai quando tinha um ano de idade, não tive uma fi gura
masculina na minha vida. Acho que Deus me deu o Dr. Grant quando eu já
era adulto, como se dissesse: “Aqui está alguém em quem você pode
confiar; conheça ele, seja como ele.” A morte dele me afetou
profundamente, mas, felizmente, a gente tinha passado tanto tempo junto
que eu não precisava lamentar que não tivesse gasto mais tempo com ele.
Nós tivemos todo esse tempo. Foi uma relação rica e saudável. ENFOQUE – O Sul americano é o mesmo de sua infância? YANCEY – Certamente, as leis mudaram, e as leis racistas acabaram. ENFOQUE – Muitos brasileiros fi caram chocados com o apoio de alguns
autores norte-americanos, muito queridos aqui, como Max Lucado, ao
presidente George W. Bush na invasão ao Iraque... YANCEY – Os americanos, em geral, estão mudando: mais de 50% da
população é contra a guerra agora. Na época, a maioria dos americanos
realmente acreditava, e eu acho que George W. Bush também, que existiam
armas perigosas no Iraque. Pessoalmente nunca vi o Iraque como uma
ameaça. Nós tínhamos aviões sobrevoando aquele país a cada hora do dia,
todos os dias, de todos os países do mundo. O Iraque era provavelmente
muito pouco perigoso para a América e não havia indicações de que
tivesse alguma coisa a ver com os atentados de 11 de setembro. Esse é
um dos problemas que os evangélicos dos Estados Unidos enfrentam:
quanto mais perto eles chegam do poder, mais difícil é para o resto do
mundo entender se eles estão falando como cristãos ou como cidadãos.
Não tenho dúvida sobre a sinceridade da fé de George Bush. Acho que ele
é um cristão, que teve difi culdades com o alcoolismo, mas teve a
experiência do novo nascimento. Eu cito Martin Luther King: “Se eu
tivesse de passar por uma cirurgia, eu preferiria ser operado por um
cirurgião muçulmano e não por um açougueiro cristão.” Eu preferiria ter
alguém que entende de cirurgia, mesmo que nós não tenhamos a mesma
crença, do que um cristão que, por um acaso, tem uma faca. Então, não
questiono a fé de George W. Bush, mas só porque ele é um cristão devoto
não significa que está tomando as melhores decisões políticas para os
Estados Unidos. Os meus presidentes favoritos foram Bill Clinton e
Jimmy Carter. Jimmy Carter é um cristão devoto que sabe separar a sua
fé da sua política, e todos sabiam onde ele estava como cristão. ENFOQUE – Os jovens hoje são mais alienados do que aqueles que liam a Campus Life? YANCEY – Um amigo meu trabalha com uma organização que planeja
escolas bíblicas de um ano em diferentes países do mundo. Ele me disse,
certa vez: “A nossa geração foi criada para ser forte e disciplinada,
mas não tão boa em sentimentos.” Pascal fala uma coisa muito parecida
com isso quando discorre sobre paixão e conhecimento. Parece que o
comportamento das gerações é cíclico. Quando éramos jovens cristãos,
tínhamos de ser disciplinados, levantar cedo, ler a Bíblia por meia
hora, orar, memorizar versículos, essas coisas. Só que sentávamos na
igreja e tínhamos de nos esforçar para fi car acordados. Esta nova
geração está na igreja, clamando, com músicas novas. Talvez não sejam
tão disciplinados. Muitas vezes, não sabem nem as histórias bíblicas
básicas. O desafi o para a Igreja é, sempre, tentar achar um
equilíbrio. Os jovens trazem um certo idealismo porque – pelo menos nos
Estados Unidos – é muito comum que os jovens participem de viagens
missionárias para outros países, como o México e a República
Dominicana, para ajudar a construir casas, como o projeto Hábitat para
Humanidade. Não fizemos isso. Eles têm mais energia e mais idealismo. O
mundo faz com que seja muito fácil se distrair com os videogames, a
televisão e todos esses entretenimentos. Por isso, é muito difícil ter
disciplina. Esse é o pêndulo que balança o tempo todo na Igreja: a
paixão e o conhecimento ou o sentimento e a disciplina. Temos muito o
que aprender com os jovens, como, por exemplo, a experiência da
adoração, que é algo que trouxe uma nova energia para dentro da Igreja,
e o idealismo deles, a ajuda a terceiros. E eles têm algo a aprender de
nós, velhos, também. ENFOQUE – Em Alma sobrevivente senti falta de C.S. Lewis, Madre Tereza de Calcutá e Dietrich Bonhoeffer... YANCEY – C.S. Lewis deveria estar no livro, mas existem tantos
livros sobre ele que eu não teria nada de novo para dizer. Eu poderia
dizer como ele me causou impacto, mas realmente queria falar de pessoas
que nem todos conheciam. Talvez eles (C.S. Lewis, Madre Tereza) não
sejam tão conhecidos em outros países, mas, quando eu estava escrevendo
o livro, não o imaginei publicado em outros países. Pensando no assunto
depois, percebi que, das 13 pessoas sobre as quais escrevi, apenas
cinco eram americanas. Os outros eram de outros países. Isso me fez
sentir bem. Não fiz isso de propósito, mas realmente fui influenciado
por pessoas internacionais. Aprendi muito com Dietrich Bonhoeffer, mas,
provavelmente, ENFOQUE – Em Maravilhosa graça, você fala da escolha de um amigo
gay, Mel. Com tudo o que aconteceu depois do livro, sua posição em
relação ao homossexualismo mudou? YANCEY – Procuro não fazer um julgamento rígido sobre esse assunto,
porque, a partir do momento em que julga, você perde metade das pessoas
que devem ouvir o que tem a dizer. Falo do que tenho certeza, e tenho
certeza da maneira como devemos tratar as pessoas que fazem as coisas
de uma forma diferente da que a gente faz e até mesm com as pessoas que
fazem coisas que desaprovamos fortemente. É isso que signifi ca graça.
Se alguém é igual a mim, não preciso de graça. Eu preciso da graça para
quem é diferente de mim. Então, o que aprendi com o meu amigo foi que
ele teve de ter muita graça em relação a mim, também, porque eu
trabalho para a revista Christianity Today, que é uma revista que faz
afirmações contra o homossexualismo. Então, é tão difícil para o Mel
ser meu amigo quanto é para mim ser amigo dele. Ao contrário de algumas
pessoas, não acho que o homossexualismo seja uma opção, que Mel e
outras pessoas ENFOQUE – Os cristãos fazem alguma diferença no mundo? YANCEY – De muitas maneiras temos mudado o mundo. Você pode ligar
toda a educação, toda a ciência, toda a medicina, toda a caridade,
todas essas coisas
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