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EDIÇÃO 50 > ENTREVISTA
Jornalista, escritor de best-sellers e colunista da Enfoque, Philip Yancey revela como se dá a produção de seus livros e como se sente como cristão “comum”, como ele mesmo diz
A Igreja está entre a paixão e o conhecimento
Israel Belo de Azevedo

Autor de vários livros muito bem vendidos em todo o mundo, inclusive no Brasil, Philip Yancey nunca estudou teologia, mas escreve como um teólogo da graça, nunca estudou filosofia formalmente, mas parece um filósofo em suas reflexões sobre o sentido da vida, nunca fez psicologia, mas se conecta às almas com profundidade. Quem o lê não se sente diante de um cidadão norte-americano, mas cidadão do mundo.
Seus livros – Maravilhosa graça, dentre eles – tocam os corações dos leitores, porque, como confessa, procura retratar as angústias das pessoas comuns. “Eu sou uma pessoa comum”, definiu-se, em sua passagem pelo Brasil, no fim mês de julho, trazido pela Mundo Cristão, para participar da festa pelos 40 anos da editora.
No intervalo de suas palestras, para um grupo de convidados reunidos nos arredores de São Paulo, Philip Yancey deu uma longa entrevista à revista Enfoque Gospel, na qual é colunista fixo desde 2001. Eis, a seguir, os pontos principais da conversa, em que não fugiu de temas controversos, como o homossexualismo.

ENFOQUEEu seus livros há muitas referências pessoais. Esse toque autobiográfico é intencional?

YANCEY – Todas as experiências espirituais são autobiográfi cas, porque acontecem com uma pessoa, interagem com uma pessoa. Como não cresci em uma Igreja saudável, escrevo sobre isso bem abertamente. Aprendi a não confi ar em propaganda. Por um tempo joguei fora tudo que a Igreja me dizia. Como ela estava errada em seu racismo e em seu desinteresse pelos pobres, eu não ouvia nada que tinha a dizer sobre a Bíblia, sobre Jesus. Minha tarefa como escritor é voltar e me colocar não como uma autoridade, que diz às pessoas em que acreditar, mas como um peregrino descobrindo em que posso acreditar. Nisso sou diferente do Rick Warren, por exemplo. Ele é um pastor, foi ordenado para isso, está lá para pregar a Palavra de Deus. Esse não é o meu chamado. Eu não sou um pastor, eu não sou um professor. Represento a pessoa normal dos bancos da igreja, os peregrinos sentados nos bancos. Eu tento manter esse chamado diante de mim enquanto escrevo. Eu teria dificuldade de escrever de outra forma. Então, não é intencional referir-me a situações pessoais. É só um entendimento do que é o meu chamado. A única coisa que tenho a oferecer, de diferente de qualquer outro autor é um ponto de vista. O meu ponto de vista vem do meu passado, da minha família, da minha igreja.

ENFOQUEQual é a sua rotina de trabalho?

YANCEY – Nos primeiros dez anos trabalhei na redação da revista Campus Life. Sou muito grato por esses anos, porque, na rotina do escritório, aprendi a boa ética profi ssional. Muitas pessoas acham que os escritores podem se
sentar e esperar por uma inspiração. Você nunca escreveria nada, se ficasse sentado esperando por uma inspiração. Para escrever um texto para a Christianity Today, por exemplo, preciso de cinco dias de trabalho. Durante dois dias eu me preparo para escrever, e isso inclui o tempo para pesquisar. Depois gasto um dia para escrever e mais dois dias para editar o texto. Para redigir meus livros, conto com a ajuda de uma assistente. Ela vai até a biblioteca, analisa 20 livros e me traz uns três. Ao todo, gasto 40% do tempo na preparação para escrever o livro. Neste ano, estou escrevendo sobre oração. Para isso, gastos meses pesquisando, lendo outras obras sobre oração, entrevistando pessoas, porque, repito, quero retratar as pessoas comuns. A parte mais difícil nesse processo é colocar tudo no papel. Eu trabalho o dia todo, todos os dias, até as 10h da noite. O resto do ano eu gasto editando o texto. Para mim, essa é a parte divertida, porque tenho o sentimento de que posso melhorá-lo, mas, provavelmente, não posso piorá-lo. Então, minha rotina depende da parte do processo em que estou. Geralmente, a minha melhor parte do dia para trabalhar é a manhã. Por isso, procuro manter a manhã livre, sem telefonemas ou quaisquer distrações, para trabalhar umas cinco horas. Depois do almoço fi co meio sonolento, leio e respondo e-mails, esse tipo de coisa. Por volta de umas 3h da tarde, estou com a energia renovada. Então, pego o livro novamente e trabalho até as 6h da tarde. Tenho um dia longo de trabalho. De noite, tento não trabalhar, só ler. Como não temos filhos, a noite é tranqüila lá em casa.

ENFOQUE – Thomas Merton se recolhia seis meses no mosteiro e viajava seis meses para manter contato com a realidade. Você também viaja muito?

YANCEY – Por alguns anos nós moramos em Chicago, que é uma cidade grande, como São Paulo e Rio de Janeiro, e lá era muito bom para um jornalista. Era só eu sair, que tinha alguém sendo assaltado, tendo um ataque do coração. Sempre tinha alguma coisa sobre o que escrever. Mas era muito difícil para um escritor refl exivo, porque tinha alarmes de carro disparando, ruas engarrafadas, barulhos, coisas normais da cidade, distrações demais. Então, quando atingi o ponto de deixar de ser um jornalista para ser um escritor reflexivo, meditativo, nós nos mudamos para o Colorado, e isso foi há 13 anos. Você está certo. Procuro manter os meus pés em ambos os mundos. Fazemos quatro viagens internacionais
por ano. Você só entende o seu país quando o vê de fora. É importante para mim, como americano, sentir como os outros países sentem a América. Muitos americanos não têm oportunidade de ver isso. Se você cresce só nos Estados Unidos, pensa que ser cristão é ser de classe média. Jesus não era de classe média. Thomas Merton, na verdade, não queria escrever. Foi o seu diretor espiritual que o obrigou. Seu desejo, depois que fez seu voto de obediência, era se isolar em sua cela em um lugar no Kentucky, para viver totalmente no silêncio. Algumas vezes, durante uma semana toda, a única pessoa com quem falo é a moça do Starbucks [loja de café dos Estados Unidos], mas em viagens – como esta aqui a São Paulo – converso com pessoas, ouvindo as suas experiências por uma semana. Um escritor precisa ter uma vida balanceada; nenhum dia o é, mas um ano inteiro pode ser balanceado.

ENFOQUE – Quem escolhe os temas dos livros: você ou seus editores?

YANCEY – Inúmeras vezes a editora me deu idéias de temas, mas, infelizmente, nunca aceitei. Muitos dos meus livros vêm de coisas que surgem nos livros anteriores. Por exemplo, um dos primeiro livros que escrevi foi Onde está Deus quando chega a dor. Ouvia muitos leitores agradecendo pelo livro, mas ele falava mais sobre a dor física, quando muitas vezes as pessoas tinham outro tipo de dor. Ouvia testemunhos como: “Meu problema é diferente, eu tenho uma criança com deficiência, e desde então eu tenho estado bravo com Deus. Não é que esteja com dor, mas eu me sinto traído.” Então, escrevi um livro chamado Decepcionado com Deus. Muitas vezes, as questões que são levantadas em um livro, mas não são desenvolvidas ou respondidas, retornam em outro livro. Geralmente, escrevo sobre algo para o qual não tenho a resposta. Agora estou escrevendo um livro sobre oração, não porque eu seja um grande guerreiro da oração e tenha coisas a dizer sobre o tema. Ao contrário, oração sempre foi frustrante para mim. Eu tenho algumas perguntas: se Deus já sabe de tudo, por que temos de gastar tempo orando? Ouço de muitas pessoas que oram para serem curadas e não são. Sempre me perguntei para o que serve a oração. Quando tenho um questionamento que continua surgindo de tempo em tempo, decido que é hora de escrever sobre isso. Eu me sinto privilegiado porque posso passar um ano, dois anos, fazendo nada além de pensar em um determinado tema, como, por exemplo, a oração. Li as 650 orações da Bíblia e vi o que eu podia aprender com cada uma delas. Pesquisei nos livros da biblioteca, entrevistei pessoas, mas, no fim, tenho de sintetizar o que eu aprendi e o que ainda questiono.

ENFOQUE – Quais foram os seus livros que mais venderam?

YANCEY – Os três que mais venderam foram Onde está Deus quando chega a dor? – que é o livro mais antigo –, O Jesus que eu nunca conheci e Maravilhosa graça. Esses três venderam mais do que os outros. Um livro em que coloquei muito de mim e que não vendeu muito foi O Deus (in)visível. Alguns brasileiros que estão aqui comigo me falaram que leram este livro e interagiram profundamente com ele, mas não tantas pessoas como com os outros livros.

ENFOQUE – Qual deles lhe deu mais prazer?

YANCEY – Em termos de satisfação sobre a reação dos leitores, foi Maravilhosa graça, mas, na realidade, o livro que mais gostei de ter escrito foi Alma sobrevivente. Para mim, foi uma experiência muito saudável sentar e pensar nos meus mentores, nas pessoas que me infl uenciaram. Seria uma experiência positiva para qualquer um gastar cinco minutos pensando sobre as pessoas que o influenciaram. Pude passar um ano pensando nisso, podendo conhecê-los e tentando entender que sou diferente por causa deles. Escrevi sobre mim, mas escrevi sobre mim por meio dos olhos de outras pessoas, por meio dos seus efeitos em mim.

ENFOQUE – Um desses seus mentores foi o Dr. Paul Grant. Como foi seu último encontro com ele?

YANCEY – Nós estávamos de saída para uma viagem à Nova Zelândia, quando ficamos sabendo que ele tinha caído e estava em coma. Mudamos as passagens, para voar até Seatle e passar o dia lá. Ele tinha seis fi lhos, e estavam todos com ele. Estavam todos no quarto. Ele estava inconsciente, em posição fetal, e não tinha nenhum brilho em seus olhos. Grant era um cirurgião de mãos, e quando você segurava a mão dele era como se ele estivesse examinando as suas. O seu cérebro estava quase destruído, mas, no fundo, ele ainda estava examinando as suas mãos. Quando segurei as dele, ele examinou as minhas. Foi muito emocionante. Como todos os seus fi lhos estavam lá, decidi que ia falar para cada um deles o que tinha aprendido sobre eles por meio de seu pai. Para os filhos, ele sempre foi esse pai famoso que estava sempre fora, fazendo cirurgias, viajando. Mas quando eu estava sentado com ele, conversando, e o telefone tocava e era um de seus filhos, nada que a gente fazia tinha importância. Ele pulava da cadeira para atender. Quando voltava, estava radiante. Ele era um homem tradicional, e muitos homens não compartilham o que sentem por seus filhos, mas ele tinha dividido isso comigo. Esse foi o meu presente para a família. Foi um momento emocionante. Nos dias seguintes eu acordava chorando. Como perdi meu pai quando tinha um ano de idade, não tive uma fi gura masculina na minha vida. Acho que Deus me deu o Dr. Grant quando eu já era adulto, como se dissesse: “Aqui está alguém em quem você pode confiar; conheça ele, seja como ele.” A morte dele me afetou profundamente, mas, felizmente, a gente tinha passado tanto tempo junto que eu não precisava lamentar que não tivesse gasto mais tempo com ele. Nós tivemos todo esse tempo. Foi uma relação rica e saudável.

ENFOQUE – O Sul americano é o mesmo de sua infância?

YANCEY – Certamente, as leis mudaram, e as leis racistas acabaram.
Quando estou em Atlanta e vou a um jogo de beisebol ou a um restaurante, é possível ver pessoas de todas as raças sentadas juntas, rindo, se divertindo. Isso nunca aconteceria quando eu era criança. O país, como um todo, ficou mais liberal. Jesus não falou que deveríamos “limpar” a sociedade. Jesus não pareceu preocupado sobre as cinco colunas morais do Império Romano. Ele não falou nada sobre isso. Ele não pediu para criarmos uma sociedade limpa, justa, boa e pura. O nosso trabalho não é garantir que a Corte Suprema dos Estados Unidos esteja abarrotada de cristãos. Nosso trabalho é criar uma comunidade para qual as pessoas possam olhar e ver que há algo diferente em nós, que estamos cheios de alegria, que amamos uns aos outros. Nos Estados Unidos muitos cristãos se esquecem de que não devem ser vigias da sociedade, mas alternativas à sociedade. As pessoas ficam preocupadas sobre quem vai ser o presidente, mas Jesus nunca falou sobre quem deveria ser o imperador romano. A única coisa que Ele falou sobre políticos foi quando os chamou de raposas. Ele ignorava esse assunto. Na minha infância, os cristãos verdadeiros estavam em minoria, e eles queriam ser diferentes de todos da sociedade. Agora, são tantos os cristãos, que querem que todos sejam como eles. Então, decidiram que devem aprovar leis e colocar as pessoas “certas” no poder. Acho que estamos em perigo, porque estamos esquecendo o que Jesus falou que deveríamos fazer, perdendo essa missão por completo.

ENFOQUE – Muitos brasileiros fi caram chocados com o apoio de alguns autores norte-americanos, muito queridos aqui, como Max Lucado, ao presidente George W. Bush na invasão ao Iraque...

YANCEY – Os americanos, em geral, estão mudando: mais de 50% da população é contra a guerra agora. Na época, a maioria dos americanos realmente acreditava, e eu acho que George W. Bush também, que existiam armas perigosas no Iraque. Pessoalmente nunca vi o Iraque como uma ameaça. Nós tínhamos aviões sobrevoando aquele país a cada hora do dia, todos os dias, de todos os países do mundo. O Iraque era provavelmente muito pouco perigoso para a América e não havia indicações de que tivesse alguma coisa a ver com os atentados de 11 de setembro. Esse é um dos problemas que os evangélicos dos Estados Unidos enfrentam: quanto mais perto eles chegam do poder, mais difícil é para o resto do mundo entender se eles estão falando como cristãos ou como cidadãos. Não tenho dúvida sobre a sinceridade da fé de George Bush. Acho que ele é um cristão, que teve difi culdades com o alcoolismo, mas teve a experiência do novo nascimento. Eu cito Martin Luther King: “Se eu tivesse de passar por uma cirurgia, eu preferiria ser operado por um cirurgião muçulmano e não por um açougueiro cristão.” Eu preferiria ter alguém que entende de cirurgia, mesmo que nós não tenhamos a mesma crença, do que um cristão que, por um acaso, tem uma faca. Então, não questiono a fé de George W. Bush, mas só porque ele é um cristão devoto não significa que está tomando as melhores decisões políticas para os Estados Unidos. Os meus presidentes favoritos foram Bill Clinton e Jimmy Carter. Jimmy Carter é um cristão devoto que sabe separar a sua fé da sua política, e todos sabiam onde ele estava como cristão.

ENFOQUE – Os jovens hoje são mais alienados do que aqueles que liam a Campus Life?

YANCEY – Um amigo meu trabalha com uma organização que planeja escolas bíblicas de um ano em diferentes países do mundo. Ele me disse, certa vez: “A nossa geração foi criada para ser forte e disciplinada, mas não tão boa em sentimentos.” Pascal fala uma coisa muito parecida com isso quando discorre sobre paixão e conhecimento. Parece que o comportamento das gerações é cíclico. Quando éramos jovens cristãos, tínhamos de ser disciplinados, levantar cedo, ler a Bíblia por meia hora, orar, memorizar versículos, essas coisas. Só que sentávamos na igreja e tínhamos de nos esforçar para fi car acordados. Esta nova geração está na igreja, clamando, com músicas novas. Talvez não sejam tão disciplinados. Muitas vezes, não sabem nem as histórias bíblicas básicas. O desafi o para a Igreja é, sempre, tentar achar um equilíbrio. Os jovens trazem um certo idealismo porque – pelo menos nos Estados Unidos – é muito comum que os jovens participem de viagens missionárias para outros países, como o México e a República Dominicana, para ajudar a construir casas, como o projeto Hábitat para Humanidade. Não fizemos isso. Eles têm mais energia e mais idealismo. O mundo faz com que seja muito fácil se distrair com os videogames, a televisão e todos esses entretenimentos. Por isso, é muito difícil ter disciplina. Esse é o pêndulo que balança o tempo todo na Igreja: a paixão e o conhecimento ou o sentimento e a disciplina. Temos muito o que aprender com os jovens, como, por exemplo, a experiência da adoração, que é algo que trouxe uma nova energia para dentro da Igreja, e o idealismo deles, a ajuda a terceiros. E eles têm algo a aprender de nós, velhos, também.

ENFOQUE – Em Alma sobrevivente senti falta de C.S. Lewis, Madre Tereza de Calcutá e Dietrich Bonhoeffer...

YANCEY – C.S. Lewis deveria estar no livro, mas existem tantos livros sobre ele que eu não teria nada de novo para dizer. Eu poderia dizer como ele me causou impacto, mas realmente queria falar de pessoas que nem todos conheciam. Talvez eles (C.S. Lewis, Madre Tereza) não sejam tão conhecidos em outros países, mas, quando eu estava escrevendo o livro, não o imaginei publicado em outros países. Pensando no assunto depois, percebi que, das 13 pessoas sobre as quais escrevi, apenas cinco eram americanas. Os outros eram de outros países. Isso me fez sentir bem. Não fiz isso de propósito, mas realmente fui influenciado por pessoas internacionais. Aprendi muito com Dietrich Bonhoeffer, mas, provavelmente,
não na mesma época sobre a qual eu escrevi o livro. Eu o conheci mais tarde na minha vida cristã. Por isso, não foi uma experiência transformadora. Foi mais uma experiência enriquecedora. Quanto à Madre Tereza de Calcutá, assim como C.S. Lewis, já havia muitos escritos sobre ela. Também não tive nenhuma experiência pessoal com ela. Ela não escrevia muito; fazia o que ela era. O que ela fez foi ótimo. Foi uma coisa incrível. Todo mundo tem de reconhecer isso, mas eu não interagi com as idéias dela, como interagia com os pensamentos dos outros que estão no livro.

ENFOQUE – Em Maravilhosa graça, você fala da escolha de um amigo gay, Mel. Com tudo o que aconteceu depois do livro, sua posição em relação ao homossexualismo mudou?

YANCEY – Procuro não fazer um julgamento rígido sobre esse assunto, porque, a partir do momento em que julga, você perde metade das pessoas que devem ouvir o que tem a dizer. Falo do que tenho certeza, e tenho certeza da maneira como devemos tratar as pessoas que fazem as coisas de uma forma diferente da que a gente faz e até mesm com as pessoas que fazem coisas que desaprovamos fortemente. É isso que signifi ca graça. Se alguém é igual a mim, não preciso de graça. Eu preciso da graça para quem é diferente de mim. Então, o que aprendi com o meu amigo foi que ele teve de ter muita graça em relação a mim, também, porque eu trabalho para a revista Christianity Today, que é uma revista que faz afirmações contra o homossexualismo. Então, é tão difícil para o Mel ser meu amigo quanto é para mim ser amigo dele. Ao contrário de algumas pessoas, não acho que o homossexualismo seja uma opção, que Mel e outras pessoas
simplesmente decidiram ser homossexuais. É algo que está profundo na identidade dele, assim como a minha heterossexualidade é profunda em
minha identidade. Não acordei pensando: “Acho que eu vou ser heterossexual.” Eu sou! Penso que com o Mel é a mesma coisa. Cada um de nós tem
um desafio. Algumas pessoas têm um desafio com outros pecados e são atraídas
a outros tipos de tentação. Algumas pessoas são tentadas pelo alcoolismo,
outras com tentações sexuais, algumas dessas pessoas são homossexuais. A questão é a mesma para todos nós: como lidamos com essas tentações. Nós lidamos com elas de uma maneira que continuamos procurando Deus e a Sua vontade para nós ou viramos as costas para Deus e queremos ser o contrário do que Ele deseja? Não posso responder a essa questão por Mel, porque eu não estou na situação dele. Quando as pessoas tentam me pressiona por respostas, não posso responder. Esse não é o meu trabalho. Como já disse, sou só um peregrino. Não sou uma denominação, que tem de formular regras. Eu sou uma pessoa e o meu primeiro chamado é mostrar o amor de Deus às pessoas, inclusive, pessoas cujo comportamento posso não aprovar, porque Deus também não aprova esses comportamentos, mas Ele ainda as ama. Ele também não me aprova em diversas coisas, mas ainda assim me ama. Então, a minha prioridade é espalhar o amor de Deus. Nós não podemos jogar fora as passagens bíblicas que falam sobre o homossexualismo. São apenas seis passagens, que abordam o assunto de formas diferentes, mas elas ainda estão lá. Assim, você tem de concordar com elas. Tenho amigos que são divorciados. A Bíblia fala claramente de como o divórcio é pecado, inclusive, mais vezes e mais claramente do que fala sobre o homossexualismo, e não é por isso que eu deixo de ser amigo deles e de amálos. Também não fi co desaprovando a vida deles. Eu os aceito como alguém que cometeu um erro, mas que ainda é amado por Deus.

ENFOQUE – Os cristãos fazem alguma diferença no mundo?

YANCEY – De muitas maneiras temos mudado o mundo. Você pode ligar toda a educação, toda a ciência, toda a medicina, toda a caridade, todas essas coisas
às suas raízes cristãs. Se você for a lugares como a Índia, por exemplo, que tem heranças religiosas não-cristãs, não vai achar essas coisas. Na Rússia, tentaram acabar com o cristianismo e quase conseguiram, mas também quase acabaram com a caridade, com a cortesia, com a honestidade. Como viajo bastante, posso ver claramente as diferenças entre países que têm uma herança cristã e os que não têm. Estive na Suécia, que muitos chamam de póscristã, porque são poucas as pessoas que vão à igreja, e a maioria delas não se denominaria cristã. No entanto, quando as pessoas pensam
na Suécia, pensam em honestidade, em caridade e em justiça. Essas não são as primeiras palavras que vêm à mente quando digo “vikings”. Algo aconteceu para transformar esses guerreiros, que estupravam e matavam pessoas, na Suécia moderna. Foi o cristianismo! Ele mudou a sociedade. Eles não freqüentam mais a igreja, mas Jesus disse que é a pequena semente no jardim que cresce para ser uma árvore em que os pássaros vêm e descansam. Em todos os lugares a que vou, vejo evidências do cristianismo. É de uma maneira que agrada a Deus? Obviamente, não! Temos muito trabalho a fazer ainda, mas podemos ver os frutos do que os cristãos têm feito.

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