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EDIÇÃO 52 > ESPECIAL DE CAPA
Missionários são acusados de barganha em tribo amazônica
Repercussão depois da acusação
Renata Oliveira

Nos dias 18 e 25 de setembro, o “Fantástico” (Rede Globo de Televisão) veiculou duas reportagens sobre episódio que envolve a tribo Suruwuahá, na Amazônia, e a Jocum (Jovens com uma Missão). Na primeira delas, o Brasil conheceu o drama de duas indiazinhas, Sumawani e Iganani. Como nasceram com deficiências físicas, deveriam ser abandonadas por suas famílias para morrerem, pois, segundo a tradição da tribo, deficientes físicos não podem sobreviver na mata. Com ajuda dos missionários da Jocum, elas foram retiradas da aldeia e levadas para São Paulo, para operar Sumawani, que nasceu com hermafroditismo, e dar tratamento a Iganani, portadora de paralisia cerebral.
Na segunda reportagem, entretanto, a organização foi apontada como uma entidade que oferece ajuda em troca de conversões.
Um antro­pólogo enviado pela Fundação Nacional do Índio (Funai) para ficar quatro meses na tribo deu entrevista dizendo que os missionários se aproveitam da carência material para impor sua religião aos índios. Dirigentes da Funai afirmaram aos repórteres que a Jocum seria retirada da tribo e que as demais missões religiosas passariam por um recadastramento. Nesta reportagem, Enfoque foi em busca do outro lado da história.
Quando a Jocum chegou à tribo Suruwahá, há 21 anos, os índios eram chamados de Sem Nome ou Cochodo-asenses, em referência ao riacho onde viviam. A primeira análise e a classificação da língua foram feitas pela organização. Seus missionários são os únicos fora da tribo que falam sua língua. O trabalho é baseado no relacionamento e sem intencionalidade de transmitir comportamentos e costumes “civilizados”. Atualmente, os missionários Edson e Márcia Suzuki são os responsáveis pelo trabalho com a tribo, ambos com mestrado em Etno-lingüística pela Unir e Unicamp, respectivamente.
Em pronunciamento oficial, o diretor da Jocum de Porto Velho, Rondônia, Reinaldo Cazão Ribeiro, afirmou que a cultura material e a estrutura socioeconômica dos suruwahá foram sempre respeitadas, a ponto de os missionários usarem a mesma indumentária indígena, morar em cabanas como as deles, plantar a roça como eles fazem e praticar a caça. “Os suruwahá são totalmente autônomos, a não ser pela questão da saúde, e já viviam um quadro crítico nessa área na época do contato”, argumenta Ribeiro. Por isso, ele rebate as acusações feitas pelos antropólogos na reportagem do programa, mostrando que quem passou apenas quatro meses em um povo monolíngüe não teve tempo suficiente para fazer considerações tão sérias sobre a vida dos suruwahá.

Bráulia Ribeiro, presidente nacional da Jocum,
acredita que este é o momento de a Igreja levantar sua voz
em defesa da ação missionária indígena


DIREITOS HUMANOS

A presidente nacional da Jocum, Bráulia Ribeiro, mulher de Reinaldo, afirma que tem sido apresentada aos suruwahá a verdade do Evangelho, que não é uma religião, nem mesmo um sistema, mas uma pessoa: Jesus. Segundo ela, eles têm tido a oportunidade de conhecer o caráter de Cristo e avaliar por si mesmos aquilo que vivenciam em sua cultura no dia-a-dia. Uma delas é o infanticídio. Essa é uma prática usual entre eles, mas que, com o conhecimento da forma como Deus enxerga cada ser humano, tem levado algumas famílias a lutar pela vida de seus filhos, independentemente de serem perfeitos ou não. “Os suruwahá estão vivendo um momento delicado de transformação. Eles buscam respostas que não estão mais na cultura deles”, adiciona Bráulia. Por essa razão, os pais de Sumawani e a mãe de Iganani pediram ajuda, pois sabiam que suas filhas teriam uma chance de sobreviver.
dos pais das crianças e com autorização da Os missionários alegam ainda que tudo o que fizeram foi com o consentimento Funai. Ribeiro, entrentanto, critica o tratamento diferenciado dado aos indígenas, já que qualquer pai ou mãe teria autonomia para levar um filho ao médico. Esse direito é negado aos índios, pois são tutelados e só podem deixar a aldeia com o consentimento de órgãos governamentais. “Eles têm o direito de salvá-las. A Constituição brasileira lhes garante isso. A Declaração Universal dos Direitos Humanos também. No entanto, algumas idéias antropológicas falaciosas professadas no Brasil lhes negam este direito, por serem índios. Por essa razão, cremos que essa luta não se limita aos interesses da Jocum, nem apenas à situação atual das bebês. A maneira sub-humana com que os índios são tratados e vistos tem de mudar”, afirma ele.

Para o pastor Silas Tostes, organizador do
4° Congresso Brasileiro de Missões, o evento foi uma
retomada ao chamado missionário da Igreja


ISOLADOS?

Sobre tirar pessoas da aldeia para tratamento médico, Bráulia explica que isso não é algo novo. “Já fizemos isso antes, e sempre com a devida autorização da Funai e da Funasa”, complementa a missionária. Ela lembra uma certa índia que sofria de uma doença diagnosticada como bronquite. Após ser tratada pela Funasa por muito tempo com xarope, sem bons resultados, a missão resolveu levá-la para um tratamento mais completo e descobriu que ela sofria de uma grave doença chamada blastomicose, causada por um fungo no pulmão. Mas já era tarde demais, e ela morreu. “Isso serviu para percebermos como o diagnóstico é malfeito e sem consideração”, observa ela.
Hoje, quando jovens se queixam dos mesmos sintomas, a Jocum procura tirá-los da aldeia para tratamento. “O isolamento, na verdade, é um ato genocida. Se fosse qualquer ser humano do lado de fora, seria tratado, receberia diagnóstico apropriado, mas porque os índios estão ali, recebem xarope. Bráulia Ribeiro nega veementemente a acusação de que os missionários prestam ajuda em troca de conversão. “Isso não tem nada a ver. Quando estamos envolvidos com uma comunidade carente, seja ela qual for, não podemos ficar de braços cruzados. Faz parte do cristianismo verdadeiro. Procuramos fazer um trabalho de relevância na comunidade, mas nem sempre isso é permitido”, pontua.
 várias ocasiões, houve confrontos bélicos entre suruwahá e outras tribos da região, seringueiros e madeireiros que, durante muitas décadas, povoaram os rios Sobre a idéia de que o isolamento deve ser mantido, Ribeiro faz algumas objeções. Os suruwahá, diz ele, não são isolados como se afirma. O contato com o ferro (machados e facões) é muito anterior à década de 1980, por exemplo. Em por onde andam os índios.
“Ao contrário de alguns antropólogos e burocratas, entendemos as culturas humanas como dinâmicas e em constante mudança. O mesmo ocorre com a cultura indígena.” Ele destaca um ponto negativo nessa tentativa de assegurar o isolamento das tribos. “Hoje a ausência de intercâmbio com outros povos está levando o povo Suruwahá a uma endogamia genética que está produzindo cada vez mais crianças deficientes.”

Luís Wesley é doutor em Missiologia,
professor da Emony University, em Atlanta (EUA),
e professor convidado da Faculdade de Teologia
Sul-Americana em Londrina, Paraná


SUICÍDIO

O suicídio é outra prática comum entre os suruwahá que teve início depois de um massacre no povo, quando os pajés foram mortos e apenas um sobreviveu. Ele sentiu que o peso espiritual era muito grande, para carregar sozinho, e se matou. Mas antes disse que, a partir daquele momento, o caminho espiritual do povo seria a morte, o suicídio. E foi assim que o pajé abriu a porta para essa prática. “Um suicídio desencadeia outro”, diz Bráulia.
Segundo o presidente do Conselho de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas (Conplei), Henrique Terena, sua tribo é a prova de que o Evangelho bem aplicado e transmitido não destrói um povo. “Fomos o primeiro povo indígena evangelizado no Brasil. O trabalho começou em 1912, com missionários estrangeiros.” Na época, os terena somavam 30 famílias, hoje eles ultrapassam a casa dos 20 mil habitantes. “O terena tem sua língua, suas lanças. Mas nós não estamos parados no tempo, pois toda cultura evolui, é dinâmica. Somos tratados como produto da natureza, apenas. Quando o antropólogo diz que o índio não pode mudar, ele está indo contra a própria antropologia que estudou. Qualquer ser humano muda, e o índio também, pois ele é ser humano”, afirma Terena.
Quem também pensa assim é Ely Ticuna, outro líder indígena evangélico. Para ele, preservar uma cultura não quer dizer que seus aspectos negativos também devam ser mantidos. “O que é positivo, precisa ser preservado, mas o que é cultura, e negativo, tem de ser mudado.” Ele diz ainda que há antropólogos que se acham no direito de decidir pelo índio, impondo o que ele quer ou precisa. “De certa forma, muitos deles não consideram nossos direitos humanos e nosso direito de mudar a nossa cultura. A cultura são construções humanas, não são coisas que foram estabelecidas para ficarem permanentemente.
Elas sofrem modificaçoes à medida que novas necessidades vão surgindo. Os antropólogos não podem agir de forma autoritária, querendo definir sem antes perguntar ao índio.” Na opinião dele, o que o índio pensa precisa ser dito, revelado e respeitado.

Ronaldo Lidório: “O missionário tem sido um dos
fomentadores da grafia indígena e da preservação lingüística
de vários povos no Brasil”


A HORA DA IGREJA

O missionário Ronaldo Lidório, considerado um especialista na área de missões transculturais, acredita que a melhor forma de vencer a resistência contra a presença missionária evangélica entre os índios é dar cada vez mais voz aos próprios indígenas. “Às vezes, tanto a sociedade civil quanto a estatal realizam encontros para discutir a questão indígena. Mas os próprios índios são os que menos falam”, pondera ele. “Será que o índio deseja a presença missionária? Será que ele deseja interagir com a Igreja brasileira?”, pergunta o missionário, dando em seguida a resposta. “O que eu ouço é que o indígena deseja, sim. Ele percebe que o missionário tem sido um dos fomentadores da grafia indígena e da preservação lingüística de vários povos no Brasil. Além de promover a valorização da cultura e do índio, como gente que tem algo a falar, que quer ser ouvida e que é cidadã brasileira. Mas, se o índio não quiser a presença do missionário, ele saberá explicar muito bem por quê”, acrescenta.
É bem verdade que a Igreja errou – e erra – ao empreender a ação missionária. De acordo com Henrique Terena, são justamente esses erros que os críticos das missões evangélicas usam para defender a retirada delas das tribos. Os tropeços passam realmente pela cultura. Neste mundo globalizado, com uma cultura de números e resultados imediatos, explica Terena, a obra missionária indígena tem enfrentado grande desafio. Ele diz que o missionário fica ansioso para corresponder ao investimento da Igreja ou da agência que, de uma maneira ou outra, faz pressão.
“O maior desafio é educar a Igreja brasileira a pensar que esse trabalho não é uma questão do missionário, mas uma questão de Deus, uma questão de obediência a Ele, no tempo de Deus, do jeito de Deus. Não cabe ao missionário saber quantas conversões haverá daqui a 20 anos. O que cabe a ele é ser obediente a uma ordem de Deus, independentemente do que vai acontecer.” Terena diz ainda que, na ânsia de resultados, o primeiro erro é interferir nos costumes.
Para Bráulia Ribeiro, é fundamental que a Igreja entenda que o campo missionário não é uma franquia própria. “O Evangelho tem um teor supracultural. Ao mesmo tempo em que ele transforma a cultura, pode tomar a forma daquela cultura e confrontar as coisas negativas, decadentes. O Evangelho transcende a cultura”, observa ela. Uma das principais armas que têm sido utilizadas atualmente para vencer essa dificuldade – comunicar o Evangelho sem comunicar um sistema denominacional e a própria cultura – é o treinamento. Os terena possuem um seminário teológico para formar obreiros desde 1994, na Chapada dos Guimarães, Mato Grosso do Sul, por onde já passaram 35 grupos étnicos. E os ticuna, localizados na Amazônia, também estão investindo nessa área. Eles possuem um seminário, desde o ano 2000. São índios evangelizando índios.

Henrique Terena, ao lado da mulher Corina,
diz que sua tribo é a prova de que o Evangelho bem aplicado
e transmitido não destrói um povo

FINAL FELIZ?
A pequena Sumawani já foi operada e passa bem. Iganani já está em tratamento e, de acordo com os médicos, tem boas chances de andar. Apesar de a Jocum estar enfrentando um momento delicado – os missionários já começaram a ser retirados da aldeia e outras agências missionárias que trabalham com índios já estão sofrendo retaliações –, Bráulia Ribeiro acredita que esta pode ser a hora de a Igreja fazer sua voz ser ouvida. “Acho muito importante que a Igreja Evangélica se una para não permitir que essa discriminação contra as missões evangélicas nas aldeias continue, pois os católicos trabalham livremente. Por que nós temos de ter restrições? Outra questão para a qual temos estado cegos é com relação aos direitos humanos indígenas. É hora de levantar a voz e dizer: ‘Eles são gente como qualquer outra pessoa.
Eles precisam e têm direito a ter acesso às mesmas coisas que nós’. Penso que a Igreja unida pode conseguir uma vitória no Brasil em relação a isso. Se a gente se esquivar e deixar de falar, as coisas podem se complicar depois”, conclui.

MANIFESTO DO CONPLEI
Invocando os artigos 1, 2 e 5 do seu estatuto social, o Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas (Conplei) vem a público dizer que:
 
A Constituição, em seu art. 232, que trata das organizações indígenas, assegura o direito de ingressar em juízo para defesa de seus direitos e interesses... O Conplei se encontra devidamente inscrito como pessoa jurídica; portanto, a Carta Magna nos dá legitimidade de representação nas ações missionárias abaixo relacionadas:
- Ingresso de missionários não-indígenas em áreas indígenas;
- Liberdade de religião;
- Legalização de parcerias junto ao Conplei;
- Promoção de uma reflexão teológica indígena;
- Promoção de intercâmbios entre igrejas evangélicas indígenas e as demais igrejas evangélicas do país;
- Apoio e facilidades para a tradução da Bíblia para as línguas indígenas.

Faz-se necessário, então, em vista dos últimos acontecimentos relacionados com as agências missionárias, parceiras no trabalho de evangelização dos povos indígenas, um pronunciamento oficial de nossa parte.

A nossa posição em relação às denúncias amplamente apresentadas numa reportagem de um programa de TV, largamente assistido pelo povo brasileiro, é a seguinte:

- Considerando que a voz do índio, necessariamente, precisa ser ouvida, tanto pelas agências missionárias quanto pelo Poder Público ligado às discussões de âmbito indígena;
- Considerando que não há interesse do povo indígena de polemizar um fato que foi criado, unicamente, para trazer um pouco de tranqüilidade a duas famílias preocupadas com a saúde de dois de seus membros;
- Considerando que a atitude tomada pode abrir perspectivas de tratamento, não só para as duas crianças em apreço, como para as que venham a ter outros problemas de saúde;
- Considerando que “a identidade cultural de um povo não está centralizada apenas em suas crenças religiosas”, e que ocasiões existem em que iniciativas arrojadas têm de ser tomadas para preservar vidas;

Entendemos que, se estão sendo criticadas as entidades que procuram dar suporte às populações indígenas, por que não são considerados em vigor, na sua íntegra, os artigos 231 e 232 do Cap. 8 da Constituição da República Federativa do Brasil?

Portanto, não queremos que aberrações antropológicas e parte da sociedade brasileira nos arranquem mais uma vez o direito de expressar o que queremos e sentimos. Já tiraram de nós as nossas terras, já nos dizimaram e agora querem calar a nossa voz? O Conplei vem a público referendar este manifesto, na certeza de sermos compreendidos pelos senhores legisladores do Brasil.

O Conplei apóia o manifesto do 4º Congresso Brasileiro de Missões.

A direção do Conplei

MANIFESTO PELOS DIREITOS HUMANOS ENTRE OS POVOS INDÍGENAS BRASILEIROS DA AMTB
Saiba quais são as principais reivindicações desse documento:
• Que os direitos humanos dos índios brasileiros sejam respeitados, independentemente da sua condição de tutelados ou não.
• Que a cultura indígena tenha liberdade de ser vivida e manifesta, desde que não fira os direitos humanos fundamentais.
• Que os indígenas brasileiros tenham o direito de decidir seu próprio destino,   independentemente do grau de aculturação.
• Que não lhes seja negada a liberdade de opção religiosa.
• Que as parcerias com as missões religiosas sejam legitimadas, considerando sua validade e competência no apoio às comunidades indígenas.
• Nosso apoio integral aos indígenas em suas reivindicações na pessoa jurídica do Conplei e nosso apoio ao manifesto editado por aquele conselho na mesma data.

CONGRESSO DISCUTE RESGATE DA VISÃO MISSIONÁRIO DA IGREJA
Entre os dias 10 e 14 de outubro, em Águas de Lindóia, São Paulo, foi realizado o 4º Congresso Brasileiro de Missões (CBM). De acordo com o coordenador do encontro, pastor Silas Tostes, a programação foi um apelo para missões, contemplando o homem em sua totalidade. Com o tema “A Igreja em Missões – Desafios, Tendências e Possibilidades”, os congressistas, gente vinda de praticamente todos os estados brasileiros, foram desafiados a despertar em suas igrejas o compromisso da evangelização. Foram debatidas as mais diferentes questões: índios, crianças de rua, aborto, ecologia, refugiados, etc. “Foi uma retomada para o chamado missionário da Igreja”, diz Tostes.
O evento foi promovido pela Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB) e pela Associação de Professores de Missões do Brasil (APMB). Diariamente, passaram pelo Centro de Convenções do Hotel Monte Real, de 1,3 mil a 1,5 mil pessoas, ouvindo especialistas no assunto como Ariovaldo Ramos, Paul Freston, Edson Queiroz, Luís Wesley e Russell Shedd, dentre outros.

DUAS INDIAZINHAS E UM VELHO MITO
Deixe-me colocar uma “pitada adicional” no já temperado debate em torno da atitude dos missionários da Jocum, em relação às duas bebês indígenas abandonadas pelos pais e pela tribo num matagal e a reação dos antropólogos da Funai.
Parece-me que os antropólogos brasileiros envolvidos no caso apostam demais em sua crença naquilo que já se sabe ser um verdadeiro mito: o de que as culturas primitivas possuem uma absoluta e inerente harmonia natural expressa em todos os seus valores culturais, e que nenhum destes valores pode ser tocado, mudado, trocado ou transformado por qualquer tipo de influência provinda de culturas externas ou alheias ao meio.
Ora, é claro que, a priori, nenhuma cultura deveria avaliar/julgar ou ser avaliada/julgada em seus detalhes e contornos. Especialmente se tal avaliação é feita, pura e simplesmente, a partir dos valores de outra cultura qualquer que não considere, em primeiro plano, o que pensam e sentem aqueles que são de dentro. Isso é etnocentrismo. Mas o caso em questão não se refere a uma atitude etnocêntrica. A vida de duas crianças é que esteve e está em jogo.
Sem desconsiderar outros possíveis aspectos dos argumentos apresentados pelos antropólogos, é preciso recordar que a própria antropologia cultural nos ensina que, em toda e qualquer cultura, pode-se encontrar manifestações do bem e do mal. Portanto, todo e qualquer grupo humano, primitivo ou contemporâneo, possui doenças sociais que precisam de cura. Note que tal percepção por parte de missiólogos e antropólogos não é fruto de atitude ou de formulação etnocêntrica. A observação, a pesquisa, a vivência, o discernimento e a experiência ajudaram a formular tal percepção ao longo das últimas décadas.
É fato que as sociedades humanas estão e sempre estiveram doentes em vários aspectos e dimensões. Nesse assunto, contudo, tanto a missiologia quanto a antropologia cultural não se refere apenas aos aspectos sociorreligiosos. Falam também de nuances de doenças relacionais, psíquicas, comportamentais, existenciais, físicas, rituais e espirituais nas culturas.
Já se foi o tempo em que os antropólogos faziam suas pesquisas, escreviam suas teses e elaboravam longos tratados sem jamais admitir a possibilidade de que qualquer dada cultura possui desarmonias que podem promover franca e violenta afronta e destruição da dignidade, da integridade e da integralidade humana. O caso das indiazinhas abandonadas pela própria tribo e depois resgatadas pelos missionários, ilustra essa realidade.
Em outras palavras, é preciso que os antropólogos da Funai admitam na prática, e de uma vez por todas!, que o mito da harmonia primitiva já caiu por terra há muito tempo!
Não existem culturas estáticas. Toda e qualquer cultura muda, às vezes, em favor da vida e, às vezes, contra ela. Assim como guardar a memória abre avenidas para uma necessária e eventual redenção, assim como preservar é sobreviver, mudar é também uma questão de sobrevivência sociocultural dos grupos ou sociedades humanas.
Ora, as culturas indígenas também precisam de transformação nos seus aspectos malignos.
Desta forma, o grupo cultural ao qual pertencem as indiazinhas precisa, sim, ser transformado naquele aspecto de cultura que o faz conceber a necessidade (ou o alegado direito) de deixá-las no meio de uma mata para morrerem à mingua, sofrida e lentamente, ou serem devoradas por feras silvestres.
Nesse particular, a teologia e práxis de missão cristã entende que tem uma resposta relevante a dar. E isso não é coisa nova.
O renomado sociólogo Rodney Stark – que, diga-se de passagem, não se confessa cristão –, em seu livro The Rise of Christianity, um amplo estudo da história da fé e das práticas cristãs, afirma que “o que o cristianismo devolve aos seus convertidos é nada menos que a dignidade humana”. O cristianismo tem mensagem e prática que são transformadoras e em favor da vida. Muitos missionários cristãos sabem que, em todas e em cada uma das culturas presentes no globo, há incontáveis aspectos e expressões culturais que são redimíveis e que, portanto, podem e devem ser preservados e embelezados pelo Evangelho. Afinal, desenvolver cultura é um dos dons dados pelo Criador aos seres humanos. Entretanto, no que tange aos aspectos malignos de cultura, como, por exemplo, a tentativa da tribo de eliminar as menininhas, a fé cristã busca transformá-los a fim de que o bem, a dignidade e a vida plena triunfem.
Luís Wesley



SELEÇÃO DE ARTIGOS DEBATE SITUAÇÃO DO ÍNDIO NO BRASIL
Organizado por Ronaldo Lidório, Indígenas do Brasil – avaliando a missão da Igreja (Ultimato) é um livro que reúne uma série de artigos sobre a questão indígena no Brasil.
O leitor terá acesso desde pesquisas e estudos profundos até testemunhos e curiosidades de quem acompanha de perto e vive a obra missionária entre os índios. O livro é um material atual e de conteúdo extremamente relevante para a Igreja brasileira.



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