Edição 59 - JUN / 2006
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EDIÇÃO 59 > HISTÓRIA DA BÍBLIA
Um pouco de história bíblica
Os últimos dias de Judá
Luiz Sayão

O inesperado aconteceu! A Babilônia invade Judá e conquista Jerusalém no sexto século a.C. A nação, a santa cidade e o templo de Deus estavam entregues nas mãos dos ímpios gentios das terras mesopotâmicas. Esse foi um dos maiores dilemas da história do povo de Deus no Antigo Testamento.
O período imediatamente anterior à conquista neobabilônica deve começar com o rei Manassés (2 Re 21.1-18; 2 Cr 33.1-20), que havia reinado 55 anos (687/6-643/2). Conforme os registros dos livros de Reis, ele fora um rei muito perverso (2 Re 21.16). É muito provável que seu desvio religioso deva-se à sua fidelidade para com os assírios, de quem era vassalo leal. Nesse período, conflitos internos podem ter produzido uma perseguição religiosa aos que defendiam a religião nacional, conforme observou o estudioso Norman Gottwald.
Amom torna-se rei em lugar de Manassés (642-640) (2 Re 21.19-26; 2 Cr 33.21-25) e é assassinado.
Tudo indica que ele foi assassinado prematuramente por pessoas ligadas a um partido antiassírio da corte, que provavelmente pretendia restabelecer a dinastia davídica.
No cenário internacional, o pano de fundo da história anterior à época da queda de Judá começa com o declínio do império assírio após a morte de Assurbanipal (633). Esse fato permitiu maior liberdade e crescimento da influência do reino de Judá sobre a parte norte do país (Israel). As conquistas neobabilônicas (que contaram com o apoio dos medos) sobre as terras dominadas pela Assíria, abriram um bom espaço para o crescimento do nacionalismo judaíta.
Foi nesse contexto que Josias assumiu o poder em Judá. Ele fora colocado pelo “povo da terra”, grupo sociológico de perfil exato desconhecido. Suas reformas incluíram a purificação do templo de outros lugares judaítas sagrados, a apresentação pública do livro da lei, a centralização do culto em Jerusalém, medida extendida a todos os territórios recém-dominados (2 Re 22.1-23.30 e 2 Cr 34.1-35.27). O apogeu da reforma de Josias ocorre na Páscoa de 622 a.C.
Na época do seu reinado (640-609), a Assíria perde força e controle de muitos lugares e Judá prospera. Segundo Jeremias (Jr 22.13-19), Josias muito fez em favor da justiça social. Todavia, teve um fim trágico, quando tentou desafiar o faraó Neco II, aliado assírio, morrendo na batalha de Meguido em 609. Nos próximos três meses após a sua morte, Joacaz reinou em Judá (2 Rs 23.31-34; 2 Cr 36.1-4 e Jr 22.1-12). Ele é preso em Ribla pelo faraó Neco II, e Jeoaquim (Eliaquim) (2 Re 23.34-24.7; 2 Cr 36.4-8; Jr 22.13-23; 26; 36) assume o trono como vassalo do Egito. Ele se mantém no reinado até 598 a.C.
Enquanto isso, os neobabilônios conseguiram sua independência completa do poder assírio, a qual foi consolidada sob a liderança de Nabopolassar. Ele se tornou rei em Babilônia em 22-23 de novembro de 626 aC; quatro anos depois conquistou a cidade de Nipur. Já em 616 a.C. Nabopolassar conseguiu expulsar os assírios para o norte, chegando até Harã. Diante da ameaça neobabilônica, a Assíria aliou-se ao Egito, ex-domínio libertado em 654 a.C. por Psamético I.
Em 614 a.C., Ciáxares (aliado medo da Babilônia) conquistou Assur. Depois disso, a aliança medo-babilônica torna-se uma ameaça crescente (Nabucodonosor casa-se com Amitis, filha de Ciáxares). Finalmente essa aliança conquista Nínive. Sinsariscum, rei assírio, deve ter morrido na destruição da cidade.
Em 605 a.C., Nabopolassar enviou Nabucodonosor para combater a ameaça egípcia, que havia tomado Carquêmis desde 609 a.C., em aliança com os assírios. Os egípcios são derrotados. Nabucodonosor invade as terras de Judá e acaba se instalando em Ribla. O rei Jeoaquim, ex-vassalo do faraó Neco II, agora estava sujeito ao monarca neobabilônio. Com a morte de seu pai (15-16/08/605), Nabucodonosor é coroado rei na Babilônia (6-7 de setembro). Jeoaquim concordou em ser seu vassalo por três anos (2 Re 24.1). Em 601 a.C. os babilônios tentam conquistar o Egito, mas são resistidos por Neco II. A partir daí fortificam suas bases em Ribla e Hamate. Pelo fato de Judá ter buscado apoio no Egito, Nabucodonosor assedia Jerusalém, que se rende em 15-16 de março de 597 a.C.
Com a morte de Jeoaquim em 598 a.C. em Jerusalém, Joaquim (também chamado Jeconias ou Conias) (2 Re 24.8-17; 2 Cr 36.9,10; Jr 22.24-30; 52.31-34), seu filho, é o rei que perde a capital para o poderio neobabilônio, durante um reinado de apenas três meses. Ele é levado para a Babilônia, e seu tio Zedequias (2 Re 24.17-25.7; 2 Cr 36.11-21; Jr 39.1-10; 52.1-11) é nomeado rei-títere em Jerusalém. Zedequias fica no poder por onze anos e rebela-se contra os babilônios, o que provoca o cerco e a destruição da cidade em 15 de agosto de 586. Em sua tentativa de fuga, Zedequias é preso em Jericó, levado para Ribla, e é levado para a Babilônia, cego, onde morreu. Depois, um funcionário de Mispá, Gedalias, governa sob o domínio neobabilônico. Ele e seus partidários são assassinados. Os culpados fogem para o Egito (2 Re 25.23-26).
Estes momentos tristes e finais que colocaram um ponto final no Reino do Sul trazem lições importantes para todos. Os profetas, principalmente Jeremias e Habacuque, enfrentaram esses dias e trouxeram palavras divinas que esclareciam a situação. Em primeiro lugar, a queda de Judá teve origem na idolatria. A postura de Deus foi a seguinte: “Se vocês querem ídolos, vou mandá-los para onde há muitos deles”. Depois que voltou do cativeiro, nunca mais a nação caiu na idolatria!
O outro problema sério foi que a nação fizera uma aliança com Deus (Êxodo 19-24) no Sinai, e quebrou-a plenamente. Por isso, o Deus justo trouxe o castigo merecido para a nação idólatra. Finalmente, a insuficiência da antiga aliança abre espaço para a Nova Aliança (Jr 31.31-34), que desemboca na promessa de uma lei que será praticada “de dentro para fora”, por ser “escrita no coração”. A Nova Aliança se cumpre na vinda e na obra de Cristo, conforme vemos expresso no Novo Testamento (Hb 8.8-13). O momento de maior desastre e tristeza da história bíblica tornou-se o de maior esperança e alegria da redenção humana.
Luiz Sayão é lingüista e hebraísta pela USP e vencedor do prêmio Abec 2003.

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