Niteroiense nascida em 1958, Rozângela Justino é especializada em
psicologia clínica e educacional, bem como em atendimento a crianças e
adolescentes vítimas de violência doméstica. Pós-graduada em psicodrama
e psicopedagogia, fez treinamento em terapia do estresse
pós-traumático. Esteve à frente da missão Exodus-Brasil até o início de
2002 e, hoje, além de presidir a ONG Abraceh (Associação de Apoio ao
Ser Humano e à Família), exerce a função de psicóloga em dois
consultórios, no Rio e em Niterói.
Nos últimos meses, Rozângela tem feito convocações, através do blog
Movimento de Apoio, para uma campanha contra o Projeto de Lei
Complementar 122/2006, que criminaliza a homofobia. Participou de uma
reunião de estudos no Senado Federal, na qual, após serem ouvidos dois
juristas, ela pediu a palavra para falar sobre a perseguição que vem
sofrendo por parte dos ativistas do movimento pró-homossexualismo. Eles
a consideram homofóbica ao apoiar os que voluntariamente desejam deixar
a homossexualidade. Em função disso, é uma “candidata à prisão”, caso
seja aprovado o projeto de lei 122/2006. Segundo ela, este poderá levar
à cadeia todo cidadão que discordar do movimento pró-homossexualismo –
não apenas os religiosos, mas também empresários, donas-de-casa e todos
os que forem acusados de preconceito ou ato discriminador.
A psicóloga é uma das vozes que têm se levantado contra a
“aberração e sabotagem aos direitos humanos e constitucionais”,
promovida por esse movimento social. Na contracorrente dos avanços
reivindicados por esses ativistas, ela se dedica às pessoas que
desenvolveram os mais diversos transtornos sexuais e homossexuais e que
desejam mudança. Os apoiados atendidos pela Abraceh procuram a ONG em
estado de sofrimento e, ao encontrarem um local para acolhê-los,
revelam-se confortados. Os apoiadores investem num programa que inclui
uma rede de ajuda composta por profissionais, grupos de apoio e ajuda
mútua e que valoriza a intimidade com Deus e a comunhão numa igreja.
Recentemente, reuniu-se em Brasília com o vice-presidente da República
José Alencar e expôs suas idéias sobre aborto e homossexualidade.
Deixou com ele uma carta a ser entregue ao presidente Lula, enfatizando
o aspecto espiritual relacionado a essas questões.
ENFOQUE – Com que propósito foi criada a Abraceh?
ROZÂNGELA – Ela
foi criada em 2004 para que o direito de apoiar e ser apoiado fosse
garantido à sociedade pelo poder público. Nossa preocupação é com
crianças e adolescentes em situação de risco social, especialmente os
vitimados por abuso e exploração sexual. Na Abraceh é prioridade
equipar multiplicadores de informações para que trabalhos preventivos
sejam realizados. Investimos na capacitação de líderes e, neste
momento, desejamos que esta se dê dentro das próprias igrejas ou
instituições pertencentes aos apoiadores e apoiados que nos procuram.
Nós nos reunimos nestas instituições, uma vez por mês, onde temos um
momento de conforto espiritual. A Abraceh surgiu para promover ética,
paz, cidadania e defesa dos direitos, porque os ativistas do movimento
pró-homossexualismo estavam intimidando a Igreja e os missionários. A
Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia, criado numa aliança
com esses ativistas, pretende negar e derrubar todas as teorias
psicológicas que abordam a homossexualidade como um comportamento a ser
tratado e visa desestimular iniciativas de apoio aos que desejam a
mudança da sua orientação homossexual.
ENFOQUE – Por que se interessou em dar apoio, na sua clínica, a pacientes homossexuais?
ROZÂNGELA – Comecei em
1989, quando convidada pelo líder da Missão Grupo de Amigos para fazer
dinâmicas de grupo num trabalho da Comunidade S8. Com o tempo,
verifiquei que as pessoas que vivenciavam a homossexualidade desejavam
abandonar esse tipo de comportamento. Então, passei a pesquisar sobre o
tema, a estudá-lo mais. Na época, cursava a pós-graduação e,
relacionando a teoria psicodramática com as minhas observações na
Missão, desenvolvi minha monografia. Constatei que as pessoas nascem
potencialmente heterossexuais, macho e fêmea, como Deus as criou, mas
se por algumas razões, desenvolveram a homossexualidade, a
heterossexualidade pode ser resgatada, por fazer parte da sua condição
original.
ENFOQUE – Você tem acompanhado de perto o trâmite do PLC 122/2006 no Congresso. Qual a possibilidade de ser aprovado?
ROZÂNGELA – O povo
brasileiro não conhece a sua força junto ao poder público. Com menos de
uma semana para a aprovação deste PLC na Comissão de Direitos Humanos e
Legislação Participativa do Senado, conseguimos tirá-lo da pauta para
estudos devido aos nossos e-mails, telefonemas e faxes. A atuação da
bancada evangélica e católica formada por deputados federais somou-se
aos nossos esforços. A maioria dos senadores já percebeu a aberração
constitucional que é, e só está aguardando o povo encher o Senado para
não ficar mal com os ativistas e dizer para eles que a maioria não quer
este PLC.
ENFOQUE – Por que o Conselho Federal de Psicologia está processando você?
ROZÂNGELA – Porque sou
cristã-evangélica. Em 1998, aconteceu o III Encontro Cristão sobre
Homossexualismo, promovido pela missão Exodus-Brasil, com a
participação de vários psicólogos cristãos. Para perseguir as
instituições e os profissionais envolvidos neste trabalho, foi
construída, pouco depois, a Resolução 01/99 que tenta negar e derrubar
todas as teorias psicológicas que abordam a homossexualidade como um
comportamento a ser tratado. Esta resolução visou atingir especialmente
os participantes daquele encontro. Ela está a serviço da intimidação de
profissionais, desestimula qualquer iniciativa de apoiar os que desejam
mudança da sua orientação homossexual, impede o crescimento científico,
além de nos proibir de ter uma opinião formada e de expressá-la se
contrária aos interesses do movimento pró-homossexualismo. Ela não
contempla a ciência, é apenas um instrumento de “ação afirmativa”, como
se diz na nomenclatura dos direitos humanos.
ENFOQUE – A que você atribui a homossexualidade?
ROZÂNGELA – Não podemos
generalizar estabelecendo uma relação causa-efeito. Fatores
multicausais podem contribuir para o desenvolvimento da
homossexualidade. No entanto, percebo uma estreita relação entre o
abuso sexual sofrido na infância ou adolescência e a homossexualidade.
Daí a preocupação da Abraceh com a prevenção desses abusos contra a
criança e o adolescente. Devido à tentativa do movimento
pró-homossexualismo de impor o conceito da homossexualidade como parte
da natureza, há quem acredite que tenha causa orgânica. Mas a ciência
não comprovou esta afirmação. Há uma falácia levando leigos e
profissionais pouco atentos ao engano, uma forma de impor novos
conceitos e uma nova teoria sem fundamentação, sem compromisso ético.
ENFOQUE – Qual a maior dificuldade em se defender a “causa heterossexual”?
ROZÂNGELA – Tudo fica
difícil quando as pessoas não estão conscientes do que está
acontecendo. Há dois grupos distintos que desenvolvem a
homossexualidade. Devemos observar e diferenciá-los. O primeiro é
composto por pessoas que se estranham, pois possuem desejos que não
estão sintonizados com o seu eu – os egodistônicos. São os que nos
procuram para deixarem o comportamento e os desejos homossexuais. O
segundo grupo é o dos que apresentam conduta dissocial, que se rebelam
contra os valores e normas sociais. Organizaram-se politicamente e são
os maiores propagandeadores da inverdade de que a vida gay é
“maravilhosa” e que a infelicidade deles é, única e exclusivamente,
culpa do preconceito social. Tem grande influência na sociedade através
da pregação de sua teoria e pedagogia queer, empenhada em criar
conceitos e práticas para distorcer, minar e derrubar valores sociais
estabelecidos, inclusive os científicos. Sua preocupação não é com a
pessoa humana. Como o cristianismo trabalha em prol da valorização do
ser humano e da família, eles têm atacado especialmente os cristãos.
Quando olho para eles, vejo um grande campo missionário, um povo a ser
alcançado.
ENFOQUE – Em que fundamento teórico/teológico você se baseia?
ROZÂNGELA – A Bíblia é
clara em dizer que Deus criou homem e mulher (Gn 1.26,27); não criou o
ser homossexual. O homossexualismo é uma construção que distorce o
homem, feito para refletir a imagem e semelhança do seu Criador. E
ainda que o ser humano tenha desenvolvido a homossexualidade, há
possibilidade de saída, conforme relato do apóstolo Paulo (1 Co
6.9-11). Uma leitura atenta mostra a clareza do reconhecimento de que
pessoas deixaram os seus pecados. A Organização Mundial de Saúde,
através de uma publicação oficial (CID 10 – Classificação Internacional
das Doenças), aponta várias descrições acerca dos transtornos ligados à
sexualidade e à homossexualidade. Isto significa que as pessoas devem
procurar tratamento para alterá-las.
ENFOQUE – Como se dá o amadurecimento e a formação da identidade sexual na adolescência?
ROZÂNGELA – É possível
termos pessoas adultas, maduras do ponto de vista fisiológico, mas
imaturas, emocionalmente falando. A maioria dos teóricos considera a
homossexualidade uma imaturidade no desenvolvimento psicossexual.
Quando nos referimos a uma “fase homossexual” não significa que esta
seja acompanhada de experiências sexuais homossexuais. É uma fase em
que a criança se identifica mais com a do mesmo sexo, de forma a
confirmar e a fortalecer a sua própria identidade.
A heterossexualidade é considerada a fase em que a pessoa
atingiu a plena maturidade sexual. Os vínculos estabelecidos com
pessoas e objetos ao longo da vida de uma pessoa vão interferir na
formação da sua identidade, podendo transcorrer sem qualquer atropelo
ou, por outro lado, ser acometida por bloqueios e conseqüente retenção
em uma das fases do desenvolvimento psicossexual.
ENFOQUE – Em quais dimensões a homossexualidade deve ser abordada?
ROZÂNGELA – A igreja
tem o papel de aproximar as pessoas de Deus, e a intimidade com o
Criador reflete positivamente nas dimensões fisiológicas e
psicológicas. Ela trata da homossexualidade como pecado, ora pelas
pessoas e ajuda a se fortalecerem espiritualmente para se libertarem
deste comportamento e desejos.
O psicólogo ajuda essas pessoas a entenderem sentimentos e
comportamentos que não conseguem mudar, mas isso não significa que elas
estejam sendo “acariciadas” em seus pecados. Muito pelo contrário. Elas
se sentirão mais responsáveis pela mudança se o comportamento delas for
considerado pecaminoso pelas Escrituras.
ENFOQUE – Normalmente os ex-homossexuais passam a ter vida heterossexual ou se tornam abstêmios?
ROZÂNGELA – Depende de
cada pessoa. Há os que além de terem deixado o comportamento
homossexual, também conseguiram se libertar da orientação homossexual e
desenvolveram a heterossexualidade. Estes vão viver plenamente a sua
relação conjugal como outra pessoa qualquer. Outros se tornam
abstêmios, ainda que tenham desenvolvido a heterossexualidade, da mesma
forma que existem abstêmios dentre as pessoas que não tiveram qualquer
problema homossexual.
ENFOQUE – Como você vê o papel da mídia hoje em dia? Ela defende a bandeira do homossexualismo?
ROZÂNGELA – Não há
neutralidade na mídia. De uma forma geral, ela está comprometida com o
movimento pró-homossexualismo. Poucos estão tratando deste PLC que vai
contrariar o povo brasileiro, independentemente de professarem ou não a
fé cristã. Os empresários não vão poder demitir um funcionário que
vivencia a homossexualidade, mesmo que não seja um bom profissional.
Ele pode alegar estar sendo discriminado e, além da indenização, o
empresário poderá ser preso. E qualquer um poderá se declarar
homossexual para obter estes direitos.
ENFOQUE – Como a igreja tem tratado a sexualidade?
ROZÂNGELA – Percebo na
igreja evangélica um crescente interesse em tratar de temas voltados
para a sexualidade e homossexualidade. Com certeza, ainda está longe do
ideal. A igreja tem tido uma preocupação crescente em trabalhar o tema.
Os encontros de casais devem ser valorizados e o tema sexualidade deve
ser mais abordado.
ENFOQUE – Mais recentemente, você se engajou no combate ao aborto. Quais argumentos embasam seu posicionamento?
ROZÂNGELA – A sociedade
precisa falar sobre o aborto e envolver os homens nele. A ação do
aborto é da mulher, muitas vezes incentivada pelo homem, que coloca
toda a responsabilidade da gravidez nela, não assumindo a paternidade.
Na verdade, homens e mulheres engravidam e podem abortar quando não
assumem a responsabilidade pelo futuro ser humano que foi concebido
pelo casal.
O aborto é o reflexo da desorientação e irresponsabilidade do
casal, não somente da mulher. É um tema que precisa ser tratado
seriamente nas igrejas. Eu tenho incentivado as pessoas a refletirem
sobre este tema porque ele é um dos que o movimento desconstrutivista
queer tem tratado. É um “pacote” que envolve liberação de todas as
formas de expressão sexual, que parece incluir o abuso contra a criança
e o adolescente, o aborto, a sua comercialização e os estudos da
chamada revolução científica, que inclui a clonagem humana.
ENFOQUE – O
que você diria aos homossexuais convictos que, sem proselitismo, querem
exercer livremente o que consideram um direito seu (sua orientação
sexual)?
ROZÂNGELA –
Todo ser humano deve ser respeitado, independentemente do seu estilo de
vida. Sou contra chacotas e brincadeiras de qualquer natureza com os
que vivenciam a homossexualidade. O plano de salvação de Deus para toda
a humanidade inclui também os que são inquietados pelo Espírito Santo
para deixarem a homossexualidade. Enquanto cristãos, devemos fazer a
nossa parte: acolhê-los e pedir ao Espírito Santo para convencê-los do
pecado, da justiça e do juízo de Deus, e aguardar o resultado.