Edição 71 - JUN / 2007
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EDIÇÃO 71 > ENTREVISTA
Psicóloga evangélica é processada
Polêmica sobre homofobia
Samuel Averbug

Niteroiense nascida em 1958, Rozângela Justino é especializada em psicologia clínica e educacional, bem como em atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica. Pós-graduada em psicodrama e psicopedagogia, fez treinamento em terapia do estresse pós-traumático. Esteve à frente da missão Exodus-Brasil até o início de 2002 e, hoje, além de presidir a ONG Abraceh (Associação de Apoio ao Ser Humano e à Família), exerce a função de psicóloga em dois consultórios, no Rio e em Niterói.

Nos últimos meses, Rozângela tem feito convocações, através do blog Movimento de Apoio, para uma campanha contra o Projeto de Lei Complementar 122/2006, que criminaliza a homofobia. Participou de uma reunião de estudos no Senado Federal, na qual, após serem ouvidos dois juristas, ela pediu a palavra para falar sobre a perseguição que vem sofrendo por parte dos ativistas do movimento pró-homossexualismo. Eles a consideram homofóbica ao apoiar os que voluntariamente desejam deixar a homossexualidade. Em função disso, é uma “candidata à prisão”, caso seja aprovado o projeto de lei 122/2006. Segundo ela, este poderá levar à cadeia todo cidadão que discordar do movimento pró-homossexualismo – não apenas os religiosos, mas também empresários, donas-de-casa e todos os que forem acusados de preconceito ou ato discriminador.

A psicóloga é uma das vozes que têm se levantado contra a “aberração e sabotagem aos direitos humanos e constitucionais”, promovida por esse movimento social. Na contracorrente dos avanços reivindicados por esses ativistas, ela se dedica às pessoas que desenvolveram os mais diversos transtornos sexuais e homossexuais e que desejam mudança. Os apoiados atendidos pela Abraceh procuram a ONG em estado de sofrimento e, ao encontrarem um local para acolhê-los, revelam-se confortados. Os apoiadores investem num programa que inclui uma rede de ajuda composta por profissionais, grupos de apoio e ajuda mútua e que valoriza a intimidade com Deus e a comunhão numa igreja. Recentemente, reuniu-se em Brasília com o vice-presidente da República José Alencar e expôs suas idéias sobre aborto e homossexualidade. Deixou com ele uma carta a ser entregue ao presidente Lula, enfatizando o aspecto espiritual relacionado a essas questões.

ENFOQUECom que propósito foi criada a Abraceh?

ROZÂNGELA – Ela foi criada em 2004 para que o direito de apoiar e ser apoiado fosse garantido à sociedade pelo poder público. Nossa preocupação é com crianças e adolescentes em situação de risco social, especialmente os vitimados por abuso e exploração sexual. Na Abraceh é prioridade equipar multiplicadores de informações para que trabalhos preventivos sejam realizados. Investimos na capacitação de líderes e, neste momento, desejamos que esta se dê dentro das próprias igrejas ou instituições pertencentes aos apoiadores e apoiados que nos procuram. Nós nos reunimos nestas instituições, uma vez por mês, onde temos um momento de conforto espiritual. A Abraceh surgiu para promover ética, paz, cidadania e defesa dos direitos, porque os ativistas do movimento pró-homossexualismo estavam intimidando a Igreja e os missionários. A Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia, criado numa aliança com esses ativistas, pretende negar e derrubar todas as teorias psicológicas que abordam a homossexualidade como um comportamento a ser tratado e visa desestimular iniciativas de apoio aos que desejam a mudança da sua orientação homossexual.

ENFOQUEPor que se interessou em dar apoio, na sua clínica, a pacientes homossexuais?

ROZÂNGELA – Comecei em 1989, quando convidada pelo líder da Missão Grupo de Amigos para fazer dinâmicas de grupo num trabalho da Comunidade S8. Com o tempo, verifiquei que as pessoas que vivenciavam a homossexualidade desejavam abandonar esse tipo de comportamento. Então, passei a pesquisar sobre o tema, a estudá-lo mais. Na época, cursava a pós-graduação e, relacionando a teoria psicodramática com as minhas observações na Missão, desenvolvi minha monografia. Constatei que as pessoas nascem potencialmente heterossexuais, macho e fêmea, como Deus as criou, mas se por algumas razões, desenvolveram a homossexualidade, a heterossexualidade pode ser resgatada, por fazer parte da sua condição original.

ENFOQUEVocê tem acompanhado de perto o trâmite do PLC 122/2006 no Congresso. Qual a possibilidade de ser aprovado?

ROZÂNGELA – O povo brasileiro não conhece a sua força junto ao poder público. Com menos de uma semana para a aprovação deste PLC na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado, conseguimos tirá-lo da pauta para estudos devido aos nossos e-mails, telefonemas e faxes. A atuação da bancada evangélica e católica formada por deputados federais somou-se aos nossos esforços. A maioria dos senadores já percebeu a aberração constitucional que é, e só está aguardando o povo encher o Senado para não ficar mal com os ativistas e dizer para eles que a maioria não quer este PLC.

ENFOQUEPor que o Conselho Federal de Psicologia está processando você?

ROZÂNGELA – Porque sou cristã-evangélica. Em 1998, aconteceu o III Encontro Cristão sobre Homossexualismo, promovido pela missão Exodus-Brasil, com a participação de vários psicólogos cristãos. Para perseguir as instituições e os profissionais envolvidos neste trabalho, foi construída, pouco depois, a Resolução 01/99 que tenta negar e derrubar todas as teorias psicológicas que abordam a homossexualidade como um comportamento a ser tratado. Esta resolução visou atingir especialmente os participantes daquele encontro. Ela está a serviço da intimidação de profissionais, desestimula qualquer iniciativa de apoiar os que desejam mudança da sua orientação homossexual, impede o crescimento científico, além de nos proibir de ter uma opinião formada e de expressá-la se contrária aos interesses do movimento pró-homossexualismo. Ela não contempla a ciência, é apenas um instrumento de “ação afirmativa”, como se diz na nomenclatura dos direitos humanos.

ENFOQUEA que você atribui a homossexualidade?

ROZÂNGELA – Não podemos generalizar estabelecendo uma relação causa-efeito. Fatores multicausais podem contribuir para o desenvolvimento da homossexualidade. No entanto, percebo uma estreita relação entre o abuso sexual sofrido na infância ou adolescência e a homossexualidade. Daí a preocupação da Abraceh com a prevenção desses abusos contra a criança e o adolescente. Devido à tentativa do movimento pró-homossexualismo de impor o conceito da homossexualidade como parte da natureza, há quem acredite que tenha causa orgânica. Mas a ciência não comprovou esta afirmação. Há uma falácia levando leigos e profissionais pouco atentos ao engano, uma forma de impor novos conceitos e uma nova teoria sem fundamentação, sem compromisso ético.

ENFOQUEQual a maior dificuldade em se defender a “causa heterossexual”?

ROZÂNGELA – Tudo fica difícil quando as pessoas não estão conscientes do que está acontecendo. Há dois grupos distintos que desenvolvem a homossexualidade. Devemos observar e diferenciá-los. O primeiro é composto por pessoas que se estranham, pois possuem desejos que não estão sintonizados com o seu eu – os egodistônicos. São os que nos procuram para deixarem o comportamento e os desejos homossexuais. O segundo grupo é o dos que apresentam conduta dissocial, que se rebelam contra os valores e normas sociais. Organizaram-se politicamente e são os maiores propagandeadores da inverdade de que a vida gay é “maravilhosa” e que a infelicidade deles é, única e exclusivamente, culpa do preconceito social. Tem grande influência na sociedade através da pregação de sua teoria e pedagogia queer, empenhada em criar conceitos e práticas para distorcer, minar e derrubar valores sociais estabelecidos, inclusive os científicos. Sua preocupação não é com a pessoa humana. Como o cristianismo trabalha em prol da valorização do ser humano e da família, eles têm atacado especialmente os cristãos. Quando olho para eles, vejo um grande campo missionário, um povo a ser alcançado.

ENFOQUEEm que fundamento teórico/teológico você se baseia?

ROZÂNGELA – A Bíblia é clara em dizer que Deus criou homem e mulher (Gn 1.26,27); não criou o ser homossexual. O homossexualismo é uma construção que distorce o homem, feito para refletir a imagem e semelhança do seu Criador. E ainda que o ser humano tenha desenvolvido a homossexualidade, há possibilidade de saída, conforme relato do apóstolo Paulo (1 Co 6.9-11). Uma leitura atenta mostra a clareza do reconhecimento de que pessoas deixaram os seus pecados. A Organização Mundial de Saúde, através de uma publicação oficial (CID 10 – Classificação Internacional das Doenças), aponta várias descrições acerca dos transtornos ligados à sexualidade e à homossexualidade. Isto significa que as pessoas devem procurar tratamento para alterá-las.

ENFOQUEComo se dá o amadurecimento e a formação da identidade sexual na adolescência?

ROZÂNGELA – É possível termos pessoas adultas, maduras do ponto de vista fisiológico, mas imaturas, emocionalmente falando. A maioria dos teóricos considera a homossexualidade uma imaturidade no desenvolvimento psicossexual. Quando nos referimos a uma “fase homossexual” não significa que esta seja acompanhada de experiências sexuais homossexuais. É uma fase em que a criança se identifica mais com a do mesmo sexo, de forma a confirmar e a fortalecer a sua própria identidade.

A heterossexualidade é considerada a fase em que a pessoa atingiu a plena maturidade sexual. Os vínculos estabelecidos com pessoas e objetos ao longo da vida de uma pessoa vão interferir na formação da sua identidade, podendo transcorrer sem qualquer atropelo ou, por outro lado, ser acometida por bloqueios e conseqüente retenção em uma das fases do desenvolvimento psicossexual.

ENFOQUEEm quais dimensões a homossexualidade deve ser abordada?

ROZÂNGELA – A igreja tem o papel de aproximar as pessoas de Deus, e a intimidade com o Criador reflete positivamente nas dimensões fisiológicas e psicológicas. Ela trata da homossexualidade como pecado, ora pelas pessoas e ajuda a se fortalecerem espiritualmente para se libertarem deste comportamento e desejos.

O psicólogo ajuda essas pessoas a entenderem sentimentos e comportamentos que não conseguem mudar, mas isso não significa que elas estejam sendo “acariciadas” em seus pecados. Muito pelo contrário. Elas se sentirão mais responsáveis pela mudança se o comportamento delas for considerado pecaminoso pelas Escrituras.

ENFOQUENormalmente os ex-homossexuais passam a ter vida heterossexual ou se tornam abstêmios?

ROZÂNGELA – Depende de cada pessoa. Há os que além de terem deixado o comportamento homossexual, também conseguiram se libertar da orientação homossexual e desenvolveram a heterossexualidade. Estes vão viver plenamente a sua relação conjugal como outra pessoa qualquer. Outros se tornam abstêmios, ainda que tenham desenvolvido a heterossexualidade, da mesma forma que existem abstêmios dentre as pessoas que não tiveram qualquer problema homossexual.

ENFOQUEComo você vê o papel da mídia hoje em dia? Ela defende a bandeira do homossexualismo?

ROZÂNGELA – Não há neutralidade na mídia. De uma forma geral, ela está comprometida com o movimento pró-homossexualismo. Poucos estão tratando deste PLC que vai contrariar o povo brasileiro, independentemente de professarem ou não a fé cristã. Os empresários não vão poder demitir um funcionário que vivencia a homossexualidade, mesmo que não seja um bom profissional. Ele pode alegar estar sendo discriminado e, além da indenização, o empresário poderá ser preso. E qualquer um poderá se declarar homossexual para obter estes direitos.

ENFOQUEComo a igreja tem tratado a sexualidade?

ROZÂNGELA – Percebo na igreja evangélica um crescente interesse em tratar de temas voltados para a sexualidade e homossexualidade. Com certeza, ainda está longe do ideal. A igreja tem tido uma preocupação crescente em trabalhar o tema. Os encontros de casais devem ser valorizados e o tema sexualidade deve ser mais abordado.

ENFOQUEMais recentemente, você se engajou no combate ao aborto. Quais argumentos embasam seu posicionamento?

ROZÂNGELA – A sociedade precisa falar sobre o aborto e envolver os homens nele. A ação do aborto é da mulher, muitas vezes incentivada pelo homem, que coloca toda a responsabilidade da gravidez nela, não assumindo a paternidade. Na verdade, homens e mulheres engravidam e podem abortar quando não assumem a responsabilidade pelo futuro ser humano que foi concebido pelo casal.

O aborto é o reflexo da desorientação e irresponsabilidade do casal, não somente da mulher. É um tema que precisa ser tratado seriamente nas igrejas. Eu tenho incentivado as pessoas a refletirem sobre este tema porque ele é um dos que o movimento desconstrutivista queer tem tratado. É um “pacote” que envolve liberação de todas as formas de expressão sexual, que parece incluir o abuso contra a criança e o adolescente, o aborto, a sua comercialização e os estudos da chamada revolução científica, que inclui a clonagem humana.

ENFOQUEO que você diria aos homossexuais convictos que, sem proselitismo, querem exercer livremente o que consideram um direito seu (sua orientação sexual)?

ROZÂNGELA – Todo ser humano deve ser respeitado, independentemente do seu estilo de vida. Sou contra chacotas e brincadeiras de qualquer natureza com os que vivenciam a homossexualidade. O plano de salvação de Deus para toda a humanidade inclui também os que são inquietados pelo Espírito Santo para deixarem a homossexualidade. Enquanto cristãos, devemos fazer a nossa parte: acolhê-los e pedir ao Espírito Santo para convencê-los do pecado, da justiça e do juízo de Deus, e aguardar o resultado.

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