Edição 71 - JUN / 2007
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EDIÇÃO 71 > DEBATE
Evangelismo no mundo virtual
Second Life
Oziel Alves

Quando a televisão se popularizou no Brasil, muitas denominações se manifestaram contra e chegavam a disciplinar ou até excluir membros que ousassem adquirir uma. Com o surgimento da internet, uma resistência semelhante aconteceu. Agora, os televangelistas correm atrás do prejuízo. Rádio, TV e internet estão sendo amplamente utilizados para anunciar as Boas Novas. A liderança se conscientizou de que os meios evoluem, e que para colocar em prática o “Ide e pregai o Evangelho”, é necessário ir ao encontro de toda criatura. E se elas estão no universo virtual, então lá a igreja também deve estar.

Hoje, segundo o Computer Industry Almanac, mais de 1 bilhão de pessoas têm acesso à rede, e este número deve aumentar para 1,8 bilhão até 2010. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil, 21% da população usufrui deste benefício, e apesar do baixo índice, esta porcentagem representa 32 milhões de usuários, classificando o país como a 8ª nação mais populosa da web, à frente de França, Itália, Rússia, Canadá etc.

Em apenas 10 anos, as pessoas adaptaram seus hábitos e passaram a se comunicar através do computador. Com os chats aconteceu elevado crescimento dos relacionamentos virtuais e na esteira de icq, messenger, yahoo, myspacemusic, orkut e skype surge o Second Life (Segunda Vida): uma nova rede de convívio virtual com cenários em 3 dimensões, onde o usuário, sob a forma de um personagem denominado avatar , passa a viver uma vida muito semelhante à vida real, cujo atrativo está na própria tradução do nome: “Segunda Vida. Seu mundo, sua imaginação”. O projeto Second Life foi criado em 1999 pelo engenheiro americano Philip Rosedal e lançado nos Estados Unidos em 2003. E avatar é uma manifestação corporal de um ser imortal. Deriva do sânscrito Avatāra e significa “descida”. No hinduísmo, o termo é usado para encarnações de Vishnu (tais como Krishna), reverenciado como um deus.

No ambiente do Second Life, a utopia se torna realidade, transformando o sujeito naquilo que sempre sonhou. Beleza é atributo disponível a quem desejar. É o fim das estrias, celulites, efeitos da idade ou da gravidade. Em geral, os homens, que correspondem a 60% da rede, preferem ser altos, possantes e musculosos. As mulheres escolhem ser jovens, de curvas atraentes e peitos siliconados. Tudo se passa em um recinto em que os relacionamentos sucedem nos moldes já conhecidos e podem sinalizar negócios, amizades, paqueras, casamentos, traições, sexo e perversões. A prostituição é fonte de renda fácil e muitos se envolvem na promiscuidade, considerando o ato irrelevante por ser apenas virtual.

A.S., 32 anos, que prefere não se identificar, é exemplo disso. Na vida real é programador, casado e pai de dois filhos, 5 e 12 anos. Declara-se ateu e nunca entrou em uma igreja. No Second Life é investidor, compra e vende terrenos virtuais. “Mas, como a vida não é só trabalho”, diz ele, pelo menos uma vez por semana fecha a porta de seu escritório e acessa ambientes pornográficos. Para realizar suas fantasias secretas, se dispõe a pagar algumas dezenas de lindens dólar – a moeda corrente do Second Life – pelos serviços de prostitutas virtuais. O câmbio é efetuado com dinheiro real. “É só uma brincadeira. Amo minha esposa, mas isso é muito curioso e instigante. O fato de ser em 3D dá uma sensação de realismo. Além disso, é emocionante saber que há uma pessoa de verdade controlando aquele personagem”. A.S. conta que sua primeira compra na outra vida foi um pênis para o seu avatar, já que na configuração original todos os avatares nascem assexuados. Questionado se assistiria a um culto em uma igreja virtual, ele diz: “Se não tiver que pagar o dízimo, quem sabe? Afinal, lá ninguém me conhece de verdade”.

Para a psicóloga e psicoterapeuta Gláucia K. N. Lima, 37 anos, ministra de louvor da Igreja Batista Betel de Porto Alegre, a brincadeira é só a ponta do iceberg. “A fantasia realizada na vida virtual é uma pré-realização de algo subliminar latente no inconsciente humano. Pode vir a ser um refúgio para aqueles que têm dificuldades em enfrentar a vida real, assim como um espaço para o extrapolar dos desejos mais intrínsecos, sem que a identidade pessoal seja comprometida, colocada em risco de decepção ou condenação social”. Apesar da imoralidade escancarada que se propaga em ambientes de anonimato, nem tudo no Second Life é depravação. Há lugares saudáveis e infinitas formas de utilização do espaço metafísico.

O americano Kip Boahn, 31 anos, casado, dono da escola de inglês Oxford, atualmente residindo em Göppingen, na Alemanha, viu no multiplayer uma oportunidade de expandir os negócios. “Quando descobri este mundo tão imersivo e realístico, imediatamente percebi as possibilidades pedagógicas que ele oferecia”. Usuário do Second Life desde outubro de 2006, Boahn – que no metaverso se chama Kipyellowjacket – é proprietário da ilha Second Life English e, juntamente com outros nove professores de diferentes continentes, dá aulas, palestras e treinamentos. Bohn declara ainda que não nutre o desejo de se envolver em romances virtuais, já que para ele o Second Life é estritamente profissional.

Assim como Bohn, as grandes corporações estão atentas à novidade. Empresas como Hering, Sony, Nissan, Toyota, Reebok, Nike, Amazon, Intel etc. estão investindo em espaços físicos e publicidade. Como a maioria dos utensílios possuídos pelos avatares tem custos, não raro se vê recepcionistas em stands nos shoppings virtuais oferecendo brindes, como roupas de modelos variados, almofadas, objetos de decoração para jardins e residências, além de outros aplicativos desconhecidos do mundo real como os freebies, doses de energia que aumentam em até 40% a velocidade de locomoção, já que o avatar pode caminhar, voar ou utilizar o teletransporte.


Em 1996, pastor Craig Groeschel fundou a Igreja Life Church. Em março deste ano, ela passou a possuir um exuberante complexo virtual, lançado sob ampla cobertura da mídia americana

Na festa de inauguração do lounge da TAM, a primeira empresa aérea a ingressar na Segunda Vida, os convidados eram recepcionados por uma comissária e um piloto devidamente uniformizados. Com DJs no comando e garçonetes servindo os mais variados drinques, o evento foi comemorado em grande estilo.

Segundo a comScore – empresa especializada em estatísticas de Internet – a adesão à rede 3D já ultrapassa os 6,2 milhões de cadastros. A Alemanha concentra o maior número de usuários ativos, seguida dos Estados Unidos, França e Grã-Bretanha. O Brasil ocupa o sexto lugar no ranking. E de olho nesse crescimento, as religiões começam a aderir ao projeto. A participação vai de centros de espiritismo, mesquitas de Alá e templos budistas até casas de adoração satânica, onde a prática sexual com cadáveres é a atração principal. Igrejas católicas, ortodoxas e evangélicas também estão presentes.


O americano Kip Boahn, dono da escola de inglês Oxford, viu no multiplayer uma oportunidade de expandir os negócios. “Quando descobri este mundo, imediatamente percebi as possibilidades pedagógicas que ele oferecia”

Por ocasião da chegada do papa ao Brasil, por exemplo, a Fundação Canção Nova, ligada à igreja católica, inaugura em maio de 2007 o primeiro templo virtual da instituição dedicado aos brasileiros. No entanto, lá não haverá missas ou confissões on-line, prática que a Santa Sé se opõe. O espaço será utilizado para estreitar relacionamentos, realizar seminários e ministrar palestras aos visitantes. Em declaração à mídia, Jorge Aparecido, superintendente de tecnologia da informação da Canção Nova declara: “Dificilmente alguém da igreja católica abordaria uma pessoa na rua para uma conversa sobre religião. Lá, isso será possível”.


As igrejas evangélicas, pelo menos no Brasil, ainda não construíram seus templos virtuais. No entanto, já há líderes interessados em estender o serviço pastoral a este segmento da sociedade. Pastor Alex Cosmo, 31 anos, casado, pai de duas filhas, conselheiro on-line e responsável pelo Ministério Aprisco, em Feira de Santana, na Bahia, já aderiu à Segunda Vida. Sob o pseudônimo “Reverendo Priestman”, planeja inaugurar o primeiro templo evangélico na ilha Brasil. “Preciso juntar lindens para comprar o terreno. Depois, mais lindens para desenvolver o projeto. Não é tão fácil quanto parece”. Cosmo acredita muito nessa idéia. “Para mim, é uma ferramenta oportuna que permite alcançar pessoas necessitadas e escondidas atrás de personagens. Vidas cujos corações, muitas vezes, dilacerados e vazios, estão à espera de uma palavra de ajuda. Não interessa se é homem ou mulher, se é executivo ou dona de casa, o que importa é que no controle daquele avatar, por trás de uma máquina, existe uma alma. Quem sabe uma vida à beira do suicídio ou um casal pronto a cometer o aborto. Há inúmeras possibilidades. Por estas razões, acredito que esse meio pode, sim, ser utilizado para que Deus se manifeste e mude a história de alguns”.


O avatar de Boalm se chama Kipyellowjacket

CULTOS REAIS EM TEMPLOS VIRTUAIS

Na Europa e nos Estados Unidos, onde 85% da população tem acesso à internet, as chamadas “igrejas do futuro” levam a sério o evangelismo on-line. Mostram que os elevados investimentos em tecnologias de ponta não acontecem em vão. A liderança reconhece que inovação por inovação não tem sentido. É preciso que, através dessas inovações, vidas sejam alcançadas.

Quando o assunto é criatividade, a Igreja LifeChurch é referência mundial. De acordo com a pesquisa “Igrejas Inovadoras”, elaborada pela revista Outreach, ela foi eleita “a melhor de 2007”, dentre 73 opções. Fundada em 1996 pelo atual pastor sênior Craig Groeschel, a igreja já possui 5 campus efetivos (localizados em Oklahoma City, Phoenix, Fort Worth, Nashville e Tulsa) e agora disponibiliza o primeiro campus no Second Life. O exuberante complexo virtual – composto por um grande templo equipado com 3 telões, 288 assentos, livraria, ambientes de convivência e de aconselhamentos confidenciais – foi lançado no dia 12 de março deste ano sob ampla cobertura da mídia secular americana.


Paulo Camargo, que freqüenta esporadicamente cultos virtuais, diz que é preciso mostrar a vida abundante em Cristo, mesmo que para isso seja necessário criar um avatar


Avatar de Camargo, que usa o pseudônimo Aslan Ray Maker

Pastor Bobby Gruenewald, líder de inovação da igreja, esclarece que um dos principais motivos pelos quais a liderança decidiu adentrar neste novo mundo foram os expressivos números ligados ao vício obsessivo pelo sexo. Para trabalhar exclusivamente esta área, a igreja criou dois ambientes de confissão e aconselhamento denominados mysecret.tv e xxxporn.com, onde o avatar conta com um ambiente propício à confissão. O pastor declara que os primeiros resultados já começam a aparecer: “Recentemente, recebi um e-mail de um homem chamado Troy, 41 anos, que descrevia os problemas que enfrentava na vida real. Certo dia, passando pela Ilha Experience, resolveu olhar os vídeos disponíveis no Mysecret.tv, onde declara ter sido extremamente impactado por Deus após confessar seus pecados e entregar sua vida ao Pai”.

Paulo Camargo, 24 anos, analista de sistemas e líder de jovens na comunidade Vida Cristã, em São Paulo, freqüenta esporadicamente os cultos virtuais da LifeChurch sob o pseudônimo AslanRayMaker. Deslumbrado com a criatividade da igreja, enfatiza: “Esta idéia é visionária e só pode vir de pessoas que têm o coração no Reino. Como cristãos, nosso propósito deve ser viver para agradar o nosso Senhor. Porém, qual será o objetivo daqueles que desconhecem o Salvador? Pois é aí que entra a igreja. Devemos mostrar a eles o propósito sublime da vida abundante de João 10.10, mesmo que para isso seja necessário criar um avatar”.

COMO ISSO ACONTECE NO SECOND LIFE?

Louvor

– Felizmente, não há avatares desafinados. Apesar de o programa suportar áudio, os avatares ainda não possuem voz. No entanto, já há boatos de uma parceria entre Skype e Second Life para inserção deste recurso, o que deixou muitos usuários indignados. O invento acabaria com a privacidade dos usuários, uma vez que a voz transmitida seria a real e, por isso, objeto de identificação. Hoje, a comunicação entre avatares é feita exclusivamente por chat. As bandas que se apresentam em igrejas e eventos colocam o som real e lá, com seus instrumentos, simulam a música. No caso da LifeChurch, as apresentações musicais são transmissões reais do louvor da igreja na “Primeira Vida”. Os avatares limitam-se a levantar as mãos. Em outras igrejas virtuais, o pastor anuncia, por exemplo: “Se você quiser acompanhar os cânticos por escrito, clique no ícone tal, ao lado do púlpito”.

Batismo

– Não vale atirar água no teclado nem afundar a tela no balde! Apesar de ser algo tecnicamente possível, não existem relatos de batismos virtuais ligados a igrejas evangélicas. No entanto, alguns avatares de cultura tipicamente católica fazem festas para batizar seus pequenos avatarezinhos, com direito a padre, padrinho e muito júbilo dos convidados. Enquanto isso, evangélicos europeus adeptos das novas tecnologias questionam: “Se a imersão nas águas é um ritual simbólico, por que não poderia existir no mundo virtual?”

Oferta

– Tecnicamente é possível. Se o pastor decidir comprar o terreno ao lado para expandir a igreja, aumentar a iluminação ou investir em publicidade, pode muito bem pedir a contribuição da membresia. Como ninguém come, vai ser difícil fazer cantina no final do culto!

Mendigos

– Parece um paradoxo falar de pobreza num mundo utópico, mas ONGs européias já colocam mendigos em lugares estratégicos pedindo lindens. A idéia das instituições é aumentar a arrecadação, transformando o dinheiro virtual em dinheiro real, a fim de ajudar pessoas realmente carentes no mundo real.

Casamento virtual

– Como diz o lema, o limite da brincadeira é a imaginação. E os avatares podem, sim, reproduzir em detalhes o casamento da vida real. Na igreja ou no campo, com vestido de noiva ou terninho de executiva, a celebração pode ter muitos convidados, padrinhos, festa e lua-de-mel em hotéis luxuosos. Há quem leve a vida de casado a sério. No entanto, lá as separações costumam acontecer em pouco menos de 2 meses e a “infidelidade conjugal” é bem mais comum do que na vida real. Resta saber se haverá pagamento de pensões para casais com filhos menores de 18 anos, uma vez que lá não existem cadeias!

Quando o pastor Craig entra em sua igreja “Primeira Vida”, ou seja, no mundo real, ele não se dirige somente à multidão presente. Como o culto em que prega é transmitido on-line também para o ambiente Second Life, ele alcança avatares. Quando faz o apelo para que muitos aceitem a Jesus, primeiro convida as pessoas reais. Só depois, com naturalidade, se dirige exclusivamente ao público do Second Life, onde, não raro, se vê avatares com as mãos levantadas em sinal de adoração ou aceitação a Cristo.

Surge, portanto, um novo meio para expandir o Evangelho. A adesão ainda é considerada pequena se comparado ao Messenger e ao Orkut. No entanto, ao que tudo indica, o ciberespaço em 3D deve revolucionar novamente as comunicações. Segundo o professor da Faculdade de Comunicação Social da PUC-RS e coordenador do Laboratório de Jornalismo Online, André Pase, esta deve ser a internet do futuro. “A complexidade dos gráficos ainda exige uma configuração de máquina muito avançada e, para o controle dos avatares, uma gama de conhecimentos bastante elevada, sobretudo para usuários comuns”. Porém, Pase, que também é usuário do Second Life e já planeja ministrar aulas da Faculdade de Jornalismo na Segunda Vida, acredita que com a sofisticação do aplicativo e a diminuição do peso dos gráficos, a adesão se acentue ainda mais.

A evolução está aí. A igreja precisa definir o seu papel na cultura da nova geração. Evangélicos irão apenas assistir aos fatos e ignorá-los ou participarão ativa e inteligentemente, tornando a mensagem de Jesus relevante e mais conhecida nesta nova sociedade?

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