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Assembléias de Deus
Maurício Zagari
A quatro anos de completar seu primeiro centenário, a Assembléia de Deus brasileira tem motivos de sobra para se orgulhar de sua trajetória. Começou pelas mãos esforçadas de apenas dois homens e hoje conta com mais de oito milhões de membros, segundo dados do IBGE, além de ter sido o berço de dezenas de denominações-filhas que ajudaram a construir a história do pentecostalismo no país. As sementes da Assembléia de Deus foram plantadas por dois missionários suecos batistas vindos dos Estados Unidos: Gunnar Vingren e Daniel Berg. Crendo inicialmente que deveriam pregar o Evangelho na China, foram conduzidos ao solo tupiniquim depois de receberem uma profecia na casa de um amigo evangélico, Adolfo Uldim. Eles chegaram a Belém do Pará em 1910, onde aportaram em 19 de novembro. Sem lugar para ficar, acabaram passando um tempo no porão da Igreja Batista da rua Balbi, 406. Ao contrário do que imaginavam, as igrejas que existiam na época, na cidade, todas tradicionais, rejeitaram a prática pentecostal dos recém-chegados, em especial depois que outros irmãos passaram a ser abençoados com a manifestação dos dons do Espírito Santo, descritos em 1 Coríntios 12. A primeira brasileira a ter a experiência foi Celina de Albuquerque. A confusão causada pelo fenômeno virou tensão e resultou no desligamento dos dois missionários e mais 19 irmãos da Igreja Batista em que congregavam originalmente. Em 18 de junho de 1911, os agregados da “nova seita’’, como foi rotulada na época, fizeram brotar a Missão de Fé Apostólica que, sete anos depois, mudaria de nome para Assembléia de Deus. A idéia foi de Vingren, possivelmente inspirado pela fundação da denominação homônima, nos Estados Unidos, em 1914. Pastor José Wellington Bezerra da Costa é o presidente da CGADB Não demorou muito tempo para que aquela nova plantinha se alastrasse e fizesse surgir uma floresta de templos assembleianos por todo o território nacional. Começou pelo Norte, depois Nordeste e, em 1922, Sudeste. O próprio Vingren mudou-se para o Rio de Janeiro. Hoje, em qualquer cidadezinha ou vilarejo de beira de estrada do interior do país é possível encontrar igrejas da denominação, devido ao profundo espírito missionário que está arraigado na cultura assembleiana. Em outros lugares, a sede constante por ganhar almas levou a um crescimento numérico tão grande que pode-se achar templos gigantescos. Em geral, o que distingue a Assembléia de Deus de igrejas chamadas ‘’tradicionais’’ é a crença em que o batismo no Espírito Santo é um evento posterior à conversão, um revestimento de poder que concede aos crentes dons como o de variedade de línguas, o de curar e o de profecia. A denominação é trinitariana, considera a Bíblia sua única regra de fé e prática, adota o batismo por imersão e crê na vinda premilenial de Jesus. Apesar de possuir diáconos, presbíteros, evangelistas e pastores, todo e qualquer membro é incentivado a pregar, evangelizar e trabalhar nos departamentos da igreja. A ‘’Bléia’’, como é carinhosamente chamada por muitos irmãos – até dentro da própria denominação – segue a linha da Reforma Protestante e seus membros crêem que qualquer pessoa pode ter um relacionamento pessoal com Deus. As lideranças primam pela ortodoxia doutrinária e seguem a linha arminiana, que valoriza o livre-arbítrio em detrimento das doutrinas de predestinação e eleição. Um aspecto que sempre despertou controvérsias na cultura assembleiana são os usos e costumes. Embora hoje já existam muitas igrejas locais que os estejam abolindo, uma grande parte dos assembleianos preserva tradições herdadas da época de Berg e Vingren, como a demonização de acessórios como brincos e colares e a não-adoção de barbas (no caso dos homens) e de calças compridas e cabelos curtos (no caso das mulheres). Outros tabus vêm caindo com o passar dos anos, como a proibição de jogar futebol e o uso de bateria nos cultos. ‘’Somos uma igreja conservadora, mas não arcaica. Ao mesmo tempo em que mantemos as bases doutrinárias da Palavra de Deus, acompanhamos a evolução da sociedade. Nos diferenciamos dos movimentos que têm como alvo agradar pessoas. Queremos agradar a Deus’’, afirma o pastor Lelis Washington Marinho, relator do Conselho Político da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil (CGADB). O sistema administrativo é basicamente escorado na figura dos pastores, com umas poucas influências congregacionais. Ao contrário de outras denominações, a Assembléia de Deus segue uma linha descentralizada, mas comunga por meio da filiação de seus pastores a agremiações, como a CGADB, com 3,5 milhões de membros, segundo o Iser (Instituto de Estudos da Religião). O presidente da CGADB, pastor José Wellington Bezerra da Costa, resume no site da entidade sua visão sobre a denominação no país: “Quando olhamos a dimensão do nosso trabalho no Brasil, lembramos que a responsabilidade com a maior igreja pentecostal brasileira é uma tarefa muito extensa, tanto no âmbito interno quanto na tarefa de evangelização dos povos”. Desde os anos 80, diversos cismas originaram mais de vinte convenções e ministérios independentes, como o Ministério de Madureira que, fundado em 1988, conta hoje com 2 milhões de integrantes. A função desses grupos é credenciar obreiros e cuidar de assuntos de liderança e direção das igrejas locais. Na área da política, o Congresso Nacional conta, atualmente, segundo a Wikipédia, com 21 deputados federais que são membros da Assembléia de Deus. Ela tem ainda 27 deputados estaduais, mais de cem prefeitos e cerca de mil vereadores. Hoje não se pode falar de pentecostalismo no Brasil sem mencionar a Assembléia de Deus. Além de pioneira, ela é o tronco de onde saíram dezenas de denominações pentecostais existentes hoje no país. ‘’É impossível mensurar quantas igrejas nasceram da denominação’’, diz o pastor Lelis. Ele acredita que a Assembléia é uma referência para as demais igrejas, pois tem crescido sem perder a base sólida de seus fundamentos. Para o futuro, a visão é continuar a ser forte. ‘’Crescer sempre, mas com alicerces sólidos na Bíblia’’, conclui. |