Edição 77 - DEZ / 2007
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EDIÇÃO 77 > VIDA CRISTÃ
E resistindo aos apelos da euforia do consumo
Celebrando o Natal
Osmar Ludovico

Alguns anos atrás estive em Cingapura participando de um curso. Uma cidade rica e opulenta, um grande entreposto comercial, com comércio livre de impostos e com enormes shopping centers. Ao lado de Hong Kong e Miami, Cingapura é o lugar dos sonhos para consumir e comprar toda sorte de novidade e luxo. Era mês de dezembro e fiquei perplexo com o colorido, as luzes e a caprichada decoração das ruas e das lojas com temas de Natal, já que aquele país tem uma minoria cristã. Tinha Papai Noel de tudo quanto era tipo e tamanho. Dei-me conta do quanto a celebração do aniversário de Jesus Cristo tornou-se uma festa meramente comercial.

Vivemos uma época difícil, de injustiça, corrupção, impunidade, drogas, exploração e violência. Olhamos para o nascimento de Jesus Cristo para aprender com Deus caminhos de paz, de amor, de justiça e de fraternidade. Com o bebê na manjedoura aprendemos valores da vida, da família, da verdade, da alegria e da simplicidade.

O Natal é uma escola de grandes valores humanos e cristãos, uma escola de amor e de vida. Ali contemplamos Deus feito homem, que abriu mão de seus privilégios e poderes para se fazer frágil, humilde e pequeno e dar sua vida por nós, o mistério de Emanuel, Deus conosco, o Verbo que se fez carne.

No Natal somos convidados a resistir aos apelos da euforia do consumo e contemplar o menino com os olhos do coração. Ao vê-lo frágil e envolto em panos na manjedoura, somos confrontados com a imagem habitual que temos de um Deus todo-poderoso, onipotente, onipresente, o Senhor dos Exércitos. Como esta imagem pode se relacionar com o menino Jesus, um Deus que assume fazer-se servo e homem para que, através dEle, todos tenhamos vida eterna?

Mais do que uma tarefa mental, olhamos contemplativamente para o mistério do Natal e, como os reis magos, nos curvamos respeitosamente diante dEle; como os pastores, nos alegramos e nos regozijamos com Ele. Conhecer o menino na manjedoura é conhecer um outro aspecto desconcertante da natureza de Deus: seu despojamento, sua humildade, sua doação, sua pobreza voluntária. E perceber que Ele faz dos despojados, dos humildes, dos que se doam e dos pobres os principais destinatários de sua mensagem redentora.

Contemplar o menino, que por amor se esvazia de sua glória divina, deve interpelar a nossa vida. Não podemos mais assumir no nosso cotidiano atitudes e comportamentos que nos levem a querer ser mais do que os outros, a querer pensar primeiro no nosso conforto, esquecendo-nos da solidariedade que reparte com o próximo aquilo que temos de melhor. Só o grande amor de Deus demonstrado na manjedoura e na cruz nos ajuda a questionar nossas vivências egoístas e autocentradas para, com seu exemplo, nos fazer abrir mão dos privilégios, despojando-nos do acúmulo de bênçãos espirituais e materiais, e, assim, nos tornarmos como Ele – instrumentos de Deus para abençoar outros.

Podemos escolher, neste Natal, viver como Ele viveu ou então nos servir do aniversário de Jesus para fazer uma festa consumista sem Ele, baseada em comida e bebida, de uma alegria efêmera e fugaz. Escolher entre um Natal com Papai Noel ou com Jesus Cristo.

Que em meio à agitação do final de ano – compras, enfeites, luzes, presentes –, possamos perceber com o nosso coração o significado profundo de um Deus que desce dos céus para habitar entre nós. De um Deus que abre mão de seu trono de glória para nascer como um de nós e mergulhar no nosso mundo conturbado. De um Deus que, sendo amor, se sujeitou a não ser amado, não ser acolhido, não ser correspondido.

Que este Natal seja para nós a festa da vida e do amor e que o Senhor Jesus Cristo possa nascer e viver também nos nossos corações. Entremos na festa do Natal não só dando e recebendo presentes materiais, mas percebendo e celebrando o maior de todos os presentes da História: a dádiva que o próprio Deus fez do seu Filho para toda a humanidade. E com Ele aprender que também nós podemos ser uma dádiva para outros, doando-nos para que este mundo se torne um lugar mais justo e pacífico. E assim não nos preocupemos com a nossa festa de Natal, mas sim em alegrar e presentear outros, principalmente aqueles que nada têm.

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