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Você é mesmo feliz?
Oziel Alves e Priscila Gorzoni
O que faz alguém feliz? Ter muito dinheiro no bolso, servir a Jesus, passar no vestibular, se casar ou simplesmente ver um pôr do sol? Pode até parecer simples tentar definir felicidade, mas não é. “Felicidade pode se referir a uma aspiração, uma esperança ou ideal, em que não haja sofrimento, privações e frustrações. O nosso desafio é o desenvolvimento, a autonomia, descobrirmos ‘qual é a nossa’, o que temos de essencial e original. Isso irá nos dar autonomia e liberdade para nos realizar, nos satisfazer e nos deixar mais em harmonia com o que somos de fato”, reflete Oswaldo Ferreira Leite Netto, médico psiquiatra, diretor técnico do Serviço de Saúde e Psicoterapia do Hospital das Clínicas de São Paulo. Esse sentimento que há tantos anos persegue o ser humano não vem
como um “pacote pronto”. A felicidade se constrói a partir da
capacidade que cada pessoa tem de interagir com os aspectos positivos e
negativos da sua própria história de vida e realidade. “A pessoa feliz
é aquela que aprendeu a lidar com seus problemas, limitações, mas
sobretudo acredita nas suas potencialidades. Deus nos dá a cada manhã a
possibilidade de novas realizações. Por isso, precisamos ter coragem de
reescrever nossa história de vida com capítulos de felicidade, apesar
de possíveis dissabores”, exemplifica Sérgio Fonseca, psicólogo clínico
e pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana do Fonseca, em Niterói, Rio
de Janeiro.
No dicionário de Língua Portuguesa, a palavra felicidade possui várias definições: qualidade ou estado de feliz, ventura, contentamento, bem-estar e bom êxito. O nome felicidade, curiosamente, foi dado pela primeira vez pelos antigos gregos por volta do século 7 antes de Cristo. Naquela época, a palavra já carregava sua complexidade e ganhou vários sentidos dentro das linhas filosóficas. Para Tales de Mileto, não era possível distingui-la do prazer sensual e da saúde física. Já para Platão, ser feliz é ser virtuoso, e esse sentimento só seria alcançado se moral e deveres fossem cumpridos. Para Aristóteles, ela era o objetivo último da humanidade e só viria através de uma vida virtuosa. Mais tarde, São Tomás de Aquino, filósofo cristão da Idade Média, definiu a felicidade possível apenas quando em comunhão total com Deus. A partir do século 17, a felicidade volta a ser vinculada ao prazer como era na Grécia antes de Platão. Já no século 19, John Stuart Mill proclama felicidade como sendo possível através de circunstâncias objetivas. Enquanto o alemão Immanuel Kant a vê como inatingível, já que depende da realização de todas as necessidades e inclinações dos seres humanos. No século 20, os filósofos passam a dar pouca importância ao tema e a felicidade só é retomada com mais afinco a partir de Sigmund Freud, austríaco e criador da psicanálise. Para ele, o conjunto das atividades psíquicas tem o propósito de proporcionar prazer e evitar o desprazer. Anne Caroline Silva considera como felicidade a satisfação de seus desejos e vontades, mas acrescenta que mesmo a adversidade traz algo que pode ensinar a se tornar melhor e mais forte
Atualmente, o médico e psiquiatra Flávio Gikovate tem se dedicado ao
tema e o trata em seu novo livro Dá pra Ser Feliz... Apesar do Medo, da
MG editores. Na obra, Gikovate define a felicidade como dependente da
capacidade de viver em paz pelo maior tempo possível. O autor vai mais
longe e considera a questão complexa, pois está ligada a uma disposição
inata, ao contexto socioeconômico, cultural, e a quanto alguém é capaz
de evoluir emocionalmente. “Aceitar a incerteza que nos cerca,
compreender como pode nos favorecer ou prejudicar, absorver o mais
rapidamente possível os acontecimentos adversos e manter uma disposição
positiva em relação ao futuro, já que ele também pode nos reservar
acontecimentos ótimos, é um indicador de maturidade emocional, porque
cria condições para sermos mais felizes”, explica Gikovate.
Diante de visões psicológicas e filosofias, uma certeza é unânime:
pequenas coisas e atos podem fazer alguém feliz. Isso, inclusive, é o
que garante Mihaly Csizkszentmihalyi, psicólogo e pesquisador da
Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. Ele foi o primeiro
estudioso a demonstrar esse sentimento como um estado de espírito que
pode ser explicado por meio de um esforço racional. Descreve a
felicidade como uma sensação que se tem quando se está imerso,
concentrado em atividades onde há desafios e possibilidades de
crescimento pessoal.
Esse estado prazeroso chamado de fluxo foi observado pelo pesquisador americano Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin. Ele verificou que as pessoas que o experimentavam ativavam uma região do cérebro chamada córtex pré-frontal esquerdo, que também melhora o funcionamento do sistema imunológico. Por outro lado, para ser feliz, segundo Martin Seligman, da Universidade da Pensilvânia, é preciso alcançar três aspectos diferentes: prazer, engajamento e significado. Os três podem acontecer quando há dedicação a Deus. Pesquisas mostram que pessoas religiosas consideram-se mais felizes que as não religiosas. Ajudar o semelhante ou se engajar em alguma causa social é
outro tópico para um ser humano se sentir feliz. Seligman chegou a essa
conclusão após constatar a presença da sensação em um grupo altruísta.
O pesquisador vai mais longe e considera como infelicidade a
inabilidade de lidar com a tristeza e a cobrança de ter que ser sempre
feliz.
Outro fato curioso comprovado pelas pesquisas é que a felicidade não pode ser comprada, mas herdada. Os pesquisadores da Universidade de Edimburgo fizeram um estudo com mil pares de gêmeos idênticos e não idênticos e descobriram que cerca de metade das diferenças em relação à felicidade são genéticas. Puderam identificar genes em comum que resultam em certos traços de personalidade e predispõem as pessoas à felicidade. A felicidade caracteriza-se pela capacidade que cada ser humano tem de enxergar a vida de forma mais ampla e de tentar dar um peso equilibrado aos seus diferentes aspectos, já que todos são importantes. “Buscar a felicidade é crescer, abrir-se para si, recuperar e buscar as forças de vida que nos impulsionam, como a curiosidade, o conhecimento, aprender a pensar, a escolher com liberdade e responsabilidade”, esclarece o médico Oswaldo Netto. Esse é o caminho que a evangélica Anne Caroline Silva, de 25 anos, da Primeira Igreja Batista de Niterói (RJ) segue. Ela considera como felicidade a satisfação de seus desejos e vontades, mas sempre sendo leal aos seus princípios. “Mesmo a adversidade traz algo que podemos aprender para nos tornarmos melhores e mais fortes”. Pastor Joaquim de Andrade opina que a Bíblia promete uma vida feliz aqui e agora, porém não da maneira como muitos líderes estão propagandeando, com garantias de melhor emprego, casa ou carro Tanto Caroline como sua colega Cristina Cerqueira, de 33 anos, da Igreja Nova Vida da Tijuca (Rio de Janeiro), consideram pequenos atos do dia-a-dia como felicidade. Cristina tenta obter essa sensação fazendo o que gosta, conquistando o equilíbrio, sendo grata a Deus e buscando a companhia dos amigos e dos bichos de estimação. Quando estão tristes, as duas procuram a presença dos amigos e a conversa com Deus. Tanto elas como os psicólogos consideram a tristeza um sentimento fundamental para se alcançar a felicidade. “Se estamos tristes, talvez devamos permanecer um pouco assim para entendermos o que se passa, nos fortalecermos para enfrentar e conhecer a realidade. A tristeza faz parte da vida, afinal temos perdas”, afirmam. E as manifestações humanas, afetivas e emocionais não são doenças. À luz da Bíblia, o conceito de felicidade tem um viés
completamente distinto da opinião materialista, associada a realização.
A felicidade bíblica não tem nenhuma ligação com o “ter”, “ser” e o
“poder” tão almejados pela grande maioria das pessoas. Ao contrário
disso, ela é uma experiência de satisfação plena e contínua em Deus, em
que até mesmo os aspectos negativos da vida recebem relevância positiva
para o aperfeiçoamento desta satisfação. Paulo foi um grande exemplo
disso. Apesar do sofrimento, fome e perseguições, mostrou-se incisivo
ao afirmar: “Sinto-me profundamente alegre em todas as minhas
tribulações”.
Segundo o psicólogo Sérgio Fonseca, “a alegria não é um estado permanente da condição humana, como se homens e mulheres estivessem imunizados à dor ou aos dissabores da vida”. Pelo contrário, dificuldades, sofrimentos e problemas são fatores essenciais para que a felicidade exista. Afinal, há tempo para todas as coisas, “tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria” (Ec 3.4). A tristeza de hoje pode ser necessária para a alegria do amanhã. Rogério Nascimento, pastor da Igreja O Brasil para Cristo de
Erechin (RS), explica essa contradição: “A felicidade do ímpio é um
contentamento condicionado às suas experiências, enquanto que a
felicidade em Cristo Jesus é incondicional, e não depende das
circunstâncias”. Ele diz ainda que “a felicidade bíblica não tem a ver
com essa alegria que se contrapõe à tristeza, mas com a tristeza que
convive em harmonia com a felicidade. Uma grande perda pode nos deixar
tristes, no entanto isso não altera nosso estado de satisfação em
Deus”.
De acordo com o pastor Joaquim de Andrade, diretor executivo do CREIA (Centro Religioso de Estudos e Informações Apologéticas), “a Bíblia nos promete uma vida feliz aqui e agora; porém não da maneira como muitos líderes estão propagandeando. Isto é, ‘siga a Jesus e tenha o melhor emprego, a melhor casa, o melhor carro etc’”. Para ele, a felicidade cristã está totalmente relacionada com a promessa de vida eterna, pois “se esperássemos experimentar a felicidade somente nesta vida, conforme as Escrituras relatam, seríamos os mais miseráveis de todos os homens. Como acreditamos na vida eterna, somos o povo mais feliz do mundo”. Ao que tudo indica, a afirmação de Andrade não é uma mera opinião. Uma pesquisa recentemente realizada na América do Norte pela PewResearchCenter comprova esta teoria e vai além. Entre os indivíduos que freqüentam a igreja assiduamente e aqueles que assistem aos cultos uma vez por mês ou menos, os mais participativos – independentemente da situação socioeconômica – tendem a ser mais felizes. Para Nascimento, a melhor definição bíblica de felicidade está em Habacuque 3.17: “Ainda que a figueira não floresça, e não haja frutos na videira, mesmo falhando a safra de azeitonas e não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral, nem bois nos estábulos, ainda assim eu exaltarei o Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação, pois o Senhor, o Soberano, é a minha força”. A essência da felicidade cristã é o conhecimento do verdadeiro
sentido da vida. Na medida em que o indivíduo procura modelar a mente
segundo a proposta do Evangelho, seus critérios e avaliações recebem
valores diferentes e todas as suas percepções de mundo sofrem profundas
alterações. À luz das bem-aventuranças, o egoísmo passa a ser amor, a
agressividade se transforma em gentileza, a crueldade em amabilidade e
compreensão, e a desumanidade no serviço fraterno. A partir daí, a
felicidade é apenas uma conseqüência.
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