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Aprendizado da liberdade
Osmar Ludovico
Estamos todos muito preocupados com o crescimento do PIB, a cotação da Bolsa e do dólar, o nosso poder de compra, o limite do cheque especial, a última promoção, o saldo bancário, os rumos da economia. Para muitos, a vida cristã se resume a buscar a Deus para resolver os problemas materiais, para assegurar o conforto e a felicidade baseada no dinheiro. Nós nos tornamos escravos dessa lógica. Lemos em Oséas 2.14-22: “Portanto, eis que a atrairei e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração” (vs.14). Assim, durante quarenta anos, após a libertação do Egito, o povo de Deus anda pelo deserto conduzido pela nuvem e pela coluna de fogo, sinais da presença de Deus. Antes de chegar à Terra Prometida, há um tempo de aprendizado para redescobrir os verdadeiros valores da vida. A justiça, o direito, a misericórdia, a fidelidade. Um longo aprendizado da liberdade longe do fascínio da riqueza e do ouro egípcio. Há uma dependência do opressor que ultrapassa as cadeias. Passamos pela conversão, mas continuamos presos à lógica da retribuição à nossa lealdade. No cativeiro, a lealdade do escravo era recompensada com boa comida por parte do opressor. No deserto, o povo de Deus tem saudades dos temperos do Egito, apesar de receber diariamente o maná que vem do céu; continua sonhando com as iguarias da escravidão. Toda escravidão tem seus ganhos. No deserto, Israel se defronta com o dilema da escolha entre a liberdade e a escravidão mantida com comida e açoite. A liberdade significa depender e seguir a Deus sem garantias. Continuar escravo significa uma vida oprimida e previsível, mas com garantia de comida. E o povo murmura, continua preso à lógica de um poder que os oprime, mas ao mesmo tempo recompensa com boa comida. No deserto há um aprendizado da frugalidade. Uma experiência de depender de Deus diariamente, de viver em comunidade, sem acúmulos. De seguir sempre em frente sem se instalar, de armar e desarmar a tenda. No Egito, estavam a serviço dos faraós construtores de pirâmides. Estruturas rígidas, imensos blocos de pedra, a serviço da morte, de tentar manter vivo o que já morreu. Ao invés de vida, múmias. No deserto, o povo de Deus aprende a tirar os olhos das pirâmides, do fausto da corte do faraó, e a viver o dia-a-dia em comunidade, dependendo de Deus, sem poder acumular. E a cultuar o Deus vivo que habita numa tenda. Jesus também vive este tempo de privação na sua vida. Antes Ele havia sido um refugiado no Egito para evitar sua morte por um rei sanguinário. No deserto Ele é tentado pelo diabo – a tentação da abundância, da notoriedade e do poder. Jesus responde que nem só de pão viverá o homem, há outros valores mais importantes. É verdade que Deus nos prometeu vida em abundância e vitória, a terra prometida onde mana leite e mel. Mas o preâmbulo para chegar é uma profunda vivência da simplicidade, da justiça, da vida comunitária e da dependência de Deus no deserto. Para que não sejamos tentados, quando estivermos em Canaã, a crer que a abundância veio pelos nossos próprios méritos, e que os pobres são pobres porque não sabem se esforçar, economizar, empreender e investir. A vida abundante, a vitória e a riqueza podem nos levar a adorar a nós mesmos e esquecer de Deus e dos outros que não possuem os mesmos recursos. Quando Jesus Cristo encontrou o jovem rico, a sua proposta pareceu descabida: Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres. O jovem havia afirmado que era obediente ao mandamento “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Ele parecia um bom religioso, cumpridor de suas obrigações. Mas a leitura que Jesus faz do mandamento para o jovem rico é: Amarás a Deus acima de tuas riquezas e ao pobre como a ti mesmo. Assim, acolhamos os tempos difíceis de frugalidade, de escassez, de penúria. É Deus quem nos conduz ao deserto, à experiência da privação e da provação. É um preâmbulo para entrar na vida abundante sem a presunção de que somos merecedores. Na terra prometida tem vitória, mas lá também está o fascínio do ouro de Acã e o olhar sedutor de Dalila. O caminho da escravidão para a liberdade passa pelo deserto. É ali que aprenderemos a viver na abundância com gratidão, humildade e generosidade; a resistir às tentações do sexo, do poder e do dinheiro. |