Edição 86 - OUT / 2008
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EDIÇÃO 86 > OUTRAS PALAVRAS
Grandes e curtas reflexões de Israel Belo
Um hino contra a desilusão
Israel Belo de Azevedo

Ouço, ao fundo, no prédio da escola ao lado, o Hino Nacional brasileiro. Imagino que crianças, que não devem entender 10% da letra que arrastam, cantem a canção, talvez em pé e com mãos nos peitos. Talvez aplaudam no final. Pode não ser muita coisa, mas é algo que fazem com um sentido coletivo, porque, desde cedo, todos somos empurrados para a lógica irrefreável do “cada-um-por-si”.

Os estrangeiros no Brasil nos vêem solidários, fraternais, grupais. Num restaurante, por exemplo, quando numa mesa canta-se “parabéns”, as outras fazem coro. No entanto, quando se trata de civismo, parece que o máximo a que chegamos é uma fugidia emoção durante o hino da pátria. Aí, somos o que somos: totalmente “cada-um-por-sistas”. E um país não se faz sem o sentimento do grupo, da coletividade, da comunidade, da nacionalidade. E este nos falta.

Os segundos brasileiros (supondo que os habitantes primevos da terra “brasilis” foram os primeiros) vieram com a ilusão de que ficariam ricos aqui, mas aqui não ficariam. É possível que o gene “o-que-importa-é-eu-me-dar-bem” tenha sido transferido para outras gerações, começando nas famílias (o único lugar em que o sentido de grupo ainda permanece) e chegando aos palácios, lugares imaginados para serem ocupados temporariamente por uns em benefício de todos, mas que têm sido sonhados como espaços de fabricação de pés-de-meia próprios.

O resultado é que as pessoas em quem haja ainda algum sentido cívico (isto é, com interesse pelas coisas nacionais) procuram se afastar dos palácios. Secretamente, seus ocupantes aplaudem. Nesse contexto, tem crescido o desdém pela obrigatoriedade da participação nas eleições. E pior: tem ficado mais forte, especialmente entre os jovens, o esforço pelo voto nulo. A derrama de promessas gera mais desilusão e mais apatia.

Só que a cidade (a nação) é de todos. A razão é simples: nós vivemos nela, e nenhum de nós vive sozinho. É por isso que a Bíblia nos diz para orar por nossa cidade (e, no contexto da ordem dada, cidade representava a nação). É também por isso que a Bíblia nos diz para orar pelas autoridades (num tempo em que essas autoridades perseguiam os que intercediam por elas). E é ainda por isso que a Bíblia nos concita a fazer a nossa parte para que vivamos bem.

Só ora quem tem esperança. Sem oração não há esperança. Sem esperança não há ação. (Terminou o canto ao lado. Não ouvi, mas espero que também tenham orado pela pátria.)

Vemos repetida nos pára-brisas a primeira parte do versículo 12 do Salmo 33: “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”. Embora o texto se refira ao povo antigo de Israel, podemos nos apropriar desse desejo para o nosso país. Uma nação que tem Deus como Senhor não tem como senhores a desigualdade, a corrupção e a violência. Nesses quesitos continuamos campeões. Nosso IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é um acinte, verificando-se um crescimento muito tímido.

O momento é de otimismo, diante dos avanços do plano econômico, e devemos nos alegrar com o desenvolvimento, cujos benefícios se espalham verticalmente. Já temos até um clube de milionários, segundo os padrões internacionais. O momento é também de manter ligadas as antenas da crítica e da indignação contra todas as formas de engano.

No plano pessoal, precisamos estar vigilantes para que um pouquinho mais de dinheiro não nos torne prepotentes e insensíveis. Precisamos ter a cívica coragem de transformar nosso conhecimento da realidade em transformação desta mesma realidade. Um blablablá que não suja as mãos é apenas um blablablá. Desde cedo aprendemos que temos direitos e deveres, nessa ordem. Concentramo-nos tanto nos nossos direitos, que nos esquecemos dos nossos deveres. Ganha coro o refrão da música pelo voto nulo. Há quem acredite que o protesto é válido. Ainda acho que os maus políticos agradecem.



INDIGNIDADE
Nada contra os lucros bilionários dos bancos brasileiros. Tudo contra o reduzido horário de atendimento, que não interessa aos trabalhadores, que não interessa aos usuários dos serviços.
Seis horas de atendimento combinadas com dois ou três caixas por agência são um desrespeito.
UMA FRASE
“Se desejarmos seguir a Cristo – e caminhar no jugo suave com Ele – teremos de aceitar totalmente seu modo de vida como o nosso modo de vida. Então, e só então, poderemos experimentar como o jugo é suave e como o fardo é leve.” (Dallas Willard)
TODA A FOME
Já esquecemos, mas Josué de Castro teria feito 100 anos em setembro. Nosso profeta da fome continua atual, infelizmente.
DO CONTRA
O mundo ficou tão complexo que banqueiro tem preocupações com a preservação do meio ambiente, enquanto professores universitários duvidam do mapa do clima que uma equipe multidisciplinar de cientistas (Painel da ONU) elaborou, considerando-o alarmista.
ANO BOM 1
Talvez 2008 fique como o melhor dos anos para a saúde, com a Lei Seca (que feriu o fígado do alcoolatrismo) e com as restrições ao cigarro.
ANO BOM 2
No plano religioso, a campanha “Minha Esperança, Brasil” pode ser o melhor acontecimento do ano. Durante três dias haverá meia hora de evangelização em rede nacional, pela Bandeirantes, Billy e Franklin Graham pregando. Se nas igrejas houver mobilização, o impacto poderá ser grande.
GUARDAR PARA CONFERIR
Gosto de catalogar previsões. Veja esta: “As coisas vão piorar e piorar nos próximos 12 a 18 meses. Já estamos em recessão nos EUA, na zona do euro e em todas as outras economias avançadas, o que vai afetar o PIB global. Nos países emergentes, as pessoas se iludem pensando que vão escapar da recessão, que haverá um descolamento. Não vai. Teremos uma severa desaceleração do crescimento no Brasil, na Rússia, na Índia, na China.” A previsão convicta é de Nouriel Roubini, um economista turco, radicado nos EUA e conhecido como “Doutor Catástrofe”. A seu favor, ele previu a bolha no mercado imobiliário americano.
OBJETO DO DESEJO
Os jornais mostram uma foto de alguém chorando copiosamente porque não conseguiu comprar um ingresso para um dos shows da cantora Madona, no Maracanã.
PINGOS NOS ‘IS’
O mundo não será transformado por missionários profissionais. A população mundial é de 6,7 bilhões de pessoas, das quais 2,2 são cristãs (de todos os tipos, algumas precisando do Evangelho ainda). Há 12,4 milhões de obreiros cristãos no mundo, dos quais 458 mil são transnacionais. O mundo será transformado por profissionais missionários. O mundo se converterá quando nós transformarmos a universidade onde estudamos ou trabalhamos em campo missionário. O mundo se converterá quando nós transformamos a empresa onde trabalhamos em campo missionário. Podemos usar a nossa profissão para ganhar a vida ou podemos usar a nossa profissão para ganhar vidas. Nosso emprego é uma providência de Deus para transformar o mundo. O trabalho bem feito, honesto, criterioso, é uma pregação. Nossos talentos não nos são dados apenas para nosso deleite, mas para abençoar outras pessoas.
POR QUE NÃO?
Os irmãos Davi, 15 anos, e Jônatas, 14, estudam em casa, sob a direção dos pais. Seus pais, Cleber e Bernadeth Nunes, que não têm religião definida, estão sendo processados por terem tirado os garotos da escola, por considerarem que o ensino é muito ruim. Para os dois, o dia começa com a leitura da Bíblia, às 7 da manhã.
VOLVER!
Está confusa a coisa: alguém sabe o que é Direita e Esquerda? Respostas para esta coluna.
ASTROS
No Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Brito e Joaquim Barbosa são estrelas que sobem.
VERGONHA
De acordo com UM levantamento feito na América Latina, 20% dos trabalhadores entrevistados no Brasil são estagiários, contra só 4% na Argentina e apenas 1% no México.
PARA VER
Exageros à parte, o “CQC”, de Marcelo Tass e equipe, na Bandeirantes, é excelente.
NÃO!
Logo agora que eu estava pensando em tomar vacina contra a gripe, vem uma pesquisa-estraga-prazeres e diz não há nenhuma eficácia nesse tipo de vacina.
Leia outros textos do autor em www.prazerdapalavra.com.br.

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